segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A cidade cega

Autor: Antenor José Figueiró – antenor.figueiro@ig.com.br

Estamos no século XXI, vivendo a dualidade entre o atual e o moderno. Bloqueamos os princípios básicos do convívio social (conduta ética, moral e religiosa) e substituímos pela nossa independência, independência esta apoiada no estado de pleno direito, oxigenada pela posse, poder, o estar presente e não o ser presente, maquiagem e manipulação.

Já fazia parte de minha infância o ditado popular que o diamantinense come repolho e arrota caviar. Não temos a capacidade de ver, entender e sentir Diamantina hoje, ontem e amanhã. Somos pequenos diante de sua grandiosidade, da história de nossos antepassados, das suas fabulosas conquistas e derrotas, de sua imponente construção. Por tudo isto não se pôde, em hipótese alguma, reescrever sua história, seria estar frente a frente com fatos e vultos, seria humilhante serem colocados no divã de suas existências pelas suas próprias mãos. “As pessoas são persistentes quando se trata de garantir sua independência imaginária”.

Sempre fui contra este modelo de carnaval que ultrapassa a zona da agressão e atinge a do crime. Não consigo perceber a lógica da perversão pessoal, comercial e social, a abstinência quanto à qualidade de nossos visitantes, a conivência dos moradores e a omissão das autoridades.

Sobre o carnaval do ano passado, cobrei e não veio uma prestação de contas. Em relação ao deste ano penso que se nossa cidade estivesse bem financeira e politicamente (tem sido divulgado intensamente o contrário), nossos postos de Saúde bem estruturados, ruas e estradas conservadas, pontes executadas, saneamento básico nos bairros e distritos, ausência de muriçocas, um diversificado e robusto calendário anual de eventos turísticos, culturais, educacionais e empresariais,  repaginação da Feira do Mercado e Café no Beco, a contenção da agonizante e grave decadência da Feira de domingo, ainda assim lutaria para que o carnaval fosse a nossa cara, o nosso jeito de ser e agir, que transportasse nosso jeito de viver nos trezentos e sessenta dias também para os cinco dias de folia. Não devemos nos adaptar aos foliões, são eles que devem absorver nossa cultura, nossa identidade.

Diamantina é mágica, sedutora, de repente, não, de repente não, agora mesmo surgem novas e eletrizantes perspectivas. Mesmo com meses de trabalho para a realização do carnaval, um valor financeiro significativo, desgaste físico e mental ainda sobrou tempo para a elaboração do Festival de Música Antiga, a reestruturação do Festival Gastronômico, a concepção do Festival de Jazz, a organização do Festival de Inverno, o trabalho de Educação Patrimonial com nossos alunos da Rede Municipal de Ensino. Confesso que é um chá de animo, um chacoalhar na autoestima.

Minhas criticas sempre foram muito cruéis e foram por que sempre acreditei no incalculável potencial de Diamantina, de seus habitantes e de seus funcionários municipais. Sinto-me muito a vontade para dizer que o que falta é muito pouco, mas de uma abrangência! Esta falta é o tempero mágico para a interlocução das secretarias, a interação entre os funcionários das mesmas, é o fazer brotar energia positiva, vestir a camisa, suor, lágrima e sorriso, para a construção de uma Diamantina, que cheire, ausculte e sonorize junto com o brilho e glamour que ela merece, é dar uma boiada para:

Que a conclusão do trabalho com os alunos de preservação patrimonial não se transformasse em tapumes que chocou com o objetivo primeiro que era o de incentivar, conhecer, valorizar e preservar.  (vejo um equívoco, os fins não justificaram os meios);

Incentivo ao pipocar de grupos teatrais pelos quatro cantos da cidade e distritos para que estes constituídos recebam as chaves do restaurado casarão dos Orlandi para a futura escola de artes que se fundirá ao Teatro de Arena (Praça da Cavalhada) e teatro Santa Izabel, uma verdadeira taça recheada de compota de figo em calda com doce de leite;

A reavaliação quanto à localização da Biblioteca Municipal. A concepção é fantástica, o ambiente indiscutível, a biblioteca infantil em anexo é mágica, mas seria prudente avaliar o resultado final. Suspeito que haverá resistências que incluem desde o simples gesto do cidadão dos bairros direcionarem ao centro e adentrarem ao prédio como também descobrirem e consumirem leitura-cultura (oferecida) a partir do Centro, consumo este que é baixo em todos os níveis sociais.                 
Desperta Diamantina! Perceba que atrás de seus muxarabiês, assim como em seus quadros de funcionários, existem corações sedentos pelo desejo da sedução, envolvimento e o deleite suave de sua alma, uma gota de limão no chá das cinco.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário