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quarta-feira, 7 de maio de 2014

UFV participa de descrição de novo gênero e espécie de roedor na região de Diamantina

Fonte: UFV (clique aqui)

Um roedor com cauda longa e de ponta branca chamou a atenção de um grupo de pesquisadores na região do Parque Nacional Sempre Vivas, em Diamantina (MG). Estudando melhor o roedor, os cientistas acabaram descobrindo que se tratava não apenas de uma nova espécie, mas também de um novo gênero a ser descrito na taxonomia animal.

A descoberta do Calassomys apicalis, já conhecido como rato de rabo branco, é uma contribuição importante para o conhecimento da fauna brasileira e a preservação da biodiversidade.

Os estudos sobre o roedor foram realizados na UFV pela professora Gisele Lessa Del Giúdice, do Departamento de Biologia Animal. O exemplar foi coletado na região de Diamantina pela equipe da professora Edeltrudes Câmara, da PUC-Minas, em um levantamento da fauna daquela região. Os animais foram encontrados apenas nos afloramentos rochosos existentes no Parque e, até o momento, não se tem notícias da ocorrência em outros locais.

Várias análises foram realizadas até a designação desse novo gênero. Estudos morfológicos de caracteres externos da anatomia de órgãos internos e diversas outras análises técnicas indicaram uma nova categoria para esses animais.

Para a professora Gisele, a raridade do roedor indica o quanto é preciso ter cuidado ostensivo e imediato com o meio ambiente brasileiro: “Esse roedor foi encontrado em uma região de afloramento rupestre, de suma importância para diversas espécies que ali vivem e que, no entanto, vem sendo degradada em diversas regiões do país. A descoberta reforça a importância da criação de parques e demais áreas de preservação no país”.

A descrição do rato do rabo branco em uma área do sudeste brasileiro reforça a ideia de preservação do meio ambiente, pois, segundo a pesquisadora, espécies podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas. Um espécime de Calassomys apicalis está depositado na coleção de mastozoologia do Museu de Zoologia João Moojen, pertencente ao Departamento de Biologia Animal da UFV.

Este não é o primeiro gênero descrito pela professora Gisele. Em 1989, ela descreveu, juntamente com o pesquisador Cástor Cartelle (PUC/MG), um gênero novo para exemplares fósseis de uma ordem de mamíferos extinta há, aproximadamente, 10 mil anos.

Os estudos sobre o Calassomys apicalis  foram publicados, em abril, na Journal of Mamalogy. A equipe contou com a colaboração dos pesquisadores Ulyses Pardiñas e Pablo Tet, da Argentina, e Jorge Salazar-Bravo, do México, bem como da professora Tudy Câmara, da PUC/Minas.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Parque das sempre-vivas: expropriação territorial e violação de direitos de quilombolas e comunidades tradicionais

Autores: Claudenir Fávero: Doutor em Agronomia, Coordenador do Núcleo de Agroecologia e Campesinato (NAC/UFVJM) e Andréa Zhouri: Doutora em Sociologia, Coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais  (GESTA/UFMG).

Fonte: Combate Racismo Ambiental (clique aqui)

O Parque Nacional das Sempre-vivas (PNVS) é só mais um exemplo, no Brasil, de criação de unidade de conservação de proteção integral sobre territórios tradicionais, neste caso, de comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas e quilombolas. Nesta porção da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, um visitante desavisado pode ser levado a acreditar que toda a beleza da natureza preservada e pujante que ali se encontra ocorre sem a presença humana, que a serra é vazia. Um ledo engano.

Desde a presença dos primeiros habitantes, que as pinturas rupestres revelam – dizimados e afugentados pelo colonizador europeu – e, posteriormente, com a chegada dos africanos escravizados[1] – deserdados a própria sorte após a Lei Áurea (1888) -, os cantos de serra, as grotas, os vales e campos dessa região foram intensamente ocupados e utilizados. Ao longo do tempo, esses grupos valeram-se dos recursos naturais disponíveis, dos conhecimentos transmitidos por gerações e da invisibilidade estratégica para sobreviver.

Aos primeiros habitantes escravizados desta região foi imposto, sob chibata, o ofício de extrator de pedras preciosas. Conforme relato de Saint-Hilaire:

“O processo de administração dos diamantes sofreu também modificações em diferentes épocas. Vou mostrar o que ela era em 1817, [...]. Os lugares onde se extraem diamantes chamam-se serviços. Cada serviço tem um guarda-armazém e um moleiro, cargos da mesma categoria e do mesmo vencimento dos feitores. Os diferentes serviços são dotados de carpinteiros, serralheiros, etc., do mesmo nível dos feitores e tendo sob suas ordens vários escravos. Todos os escravos ocupados nos diversos serviços pertencem a particulares que os alugam à administração. Houve tempo em que seu número ascendeu a três mil [...]” (Auguste De Saint-Hilaire – Viagem Pelo Distrito Dos Diamantes e Litoral do Brasil, 2004 [1833], p. 14 e 16).

Após o cativeiro, mesmo continuando com o ofício de garimpeiro, enquanto foi permitido, este não garantia todas as condições de sobrevivência. Foi necessária a busca de produtos alimentares e medicinais diretamente na natureza e o desenvolvimento de cultivos e criações que lhes garantisse a segurança e a soberania alimentar, complementadas pelas estratégias de comercialização e trocas a grandes distâncias, viabilizadas pelos tropeiros.

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No decurso da história, os meios necessários para a manutenção e reprodução social das comunidades tradicionais formadas por indígenas, quilombolas e camponeses que se encontram nesta região, foram viabilizados em interação com o meio. Essas comunidades desenvolveram estratégias variadas de uso, manejo, conhecimento e representações simbólicas relativas a esses ambientes. Desde a alimentação até os vestuários e artefatos utilizados no cotidiano foram obtidos diretamente dos elementos da natureza. Em função das possibilidades de comercialização, a coleta de flores e outros produtos dos cerrados e campos de altitude passou a ser praticada. Assim, essas comunidades tradicionais se tornaram “apanhadoras de flores sempre-vivas”. Nesta perspectiva, uso e conservação estão intimamente imbricados, pois destes recursos depende a continuidade da existência.

A coleta de flores: cultura e economia

A identidade “apanhadores de flores sempre-vivas” identifica grupos com práticas e saberes tradicionais envolvendo uma pluralidade de atividades que ocupam e utilizam diversos ambientes com fluxos e sazonalidades temporais e espacias que inclui: o cultivo das roças e quintais nas partes mais baixas ou planas do relevo, próximas aos cursos d’água ou em ambientes em que o solo propicia o cultivo nas estações chuvosas; a criação de animais de pequeno porte próxima aos quintais e a solta de gado nos campos de altitude nas estações mais secas do ano; e a coleta de flores secas (como são conhecidas) em diferentes épocas de maturação das inflorescências, dependendo de cada espécie, mas com uma concentração no período de janeiro a maio, época em que famílias inteiras se deslocam para as partes mais altas da serra e habitam “lapas[2]” ou ranchos construídos com materiais locais.

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Ainda que a coleta de flores não seja a única atividade que se realiza sobre a serra, essa identidade aproxima as comunidades de distintos locais que fazem uso comum de terras tradicionalmente ocupadas[3] ao longo de gerações. A condição de população tradicional das comunidades que habitam a área delimitada como PNSV foi atestada em parecer antropológico emitido pelo 6ª. Câmara do Ministério Público Federal:

“Como os dados da pesquisa de campo demonstraram, as populações locais que ocupam a área do Parque Nacional das Sempre-vivas e sua área de amortecimento, há mais de um século, constituem uma população tradicional de apanhadores de flores. São descendentes de lavradores da terra e de garimpeiros que desenvolveram em comum saberes e modos de vida articulados com a natureza da Serra do Espinhaço, que lhes oferecia quase tudo que necessitavam – madeira para lenha e construção de suas casas, palhas para cobertura das moradias, remédios do mato, frutos e flores nativos.

A terra que ocupam é um território, um bem coletivo, pois foi construído socialmente como espaços de pertencimento necessários à sua reprodução física, social, econômica e cultural. Seu modo de vida é dependente do meio ambiente em que vivem e suas atividades principais são a agricultura de subsistência com manejo de gado e o extrativismo de sempre-vivas, atividade mais importante na geração de renda.

Nas narrativas dos moradores do Parque Nacional das Sempre-vivas, natureza e cultura formam uma teia de significados, de saberes e atividades tradicionais da Serra do Espinhaço que constroem sua identidade de apanhadores de flores” (Dra. Ângela Maria Baptista – Antropóloga. Parecer Pericial n0 083/2011 – 6a Câmara de Coordenação e Revisão – Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais/Ministério Público Federal, 2011, p. 43 e 44).

As comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas detêm conhecimentos aprofundados sobre as espécies de flores, caros à sua conservação: em que ambiente cada espécie ocorre; em quais épocas do ano as inflorescências de cada espécie estão maduras o suficiente para serem coletadas e garantir o ressemeio; qual a melhor forma de coletar as inflorescências sem arrancar as plantas; quais espécies necessitam do manejo com fogo controlado para sua perpetuação; quais espécies suportam o pastejo de animais na área antes da emissão das inflorescências etc, etc. Este acúmulo de conhecimentos é fruto da coexistência que leva a interdependência e a co-evolução entre espécies. A paisagem e a riqueza em biodiversidade encontrada na região delimitada como PNSV e que foi justificativa para sua criação é resultado, também, da presença humana e seus modos tradicionais de vida.

A receita obtida pela venda das flores e demais produtos resultantes da coleta pode significar a maior fonte de renda monetária de uma família. Entretanto, ela pode representar uma complementação junto à renda obtida pela venda de animais e produtos oriundos da agricultura, por exemplo. De qualquer forma, ela cumpre papel importante nas estratégias de reprodução econômica, social e cultural das famílias.

Estudos realizados pelo Núcleo de Estudos em Ecofisiologia Vegetal da UFVJM (entre 2005 e 2012) comprovam que as principais espécies de sempre-vivas coletadas e que vêm sendo consideradas em risco de extinção podem ser cultivadas obtendo-se elevada produtividade, desde que sejam cultivadas em ambientes similares aos campos nativos, ou seja, nos campos de altitude utilizados pelas comunidades. Além disso, a partir das pesquisas realizadas é possível estabelecer critérios de manejo sustentável para as demais espécies junto às comunidades que acumulam vasto conhecimento a respeito.

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Isso indica a potencialidade do manejo sustentável de espécies nativas que se traduzem em produtos exclusivos desta região e que podem continuar gerando renda para dezenas de comunidades tradicionais que se encontram nesses campos. Certamente, ao sair da “invisibilidade” a atividade passa a demandar normatizações específicas que viabilizem sua continuidade. Requer, portanto, organização de procedimentos específicos e políticas públicas adequadas à atividade de forma a promover a atividade que traz consigo a cultura e a história dessas comunidades. Fato que ocorreu com outras atividades ao longo do tempo e que cabe ao contexto colocado, considerando-se uma sociedade que busca fortalecer as potencialidades locais e promover a inclusão social.

Ilegalidade, violação de direitos e violência na criação e implantação do Parque

O Parque Nacional das Sempre-vivas foi criado pelo Decreto Presidencial s/n, de 13 de dezembro de 2002. A tramitação, nos órgãos ambientais, do processo de criação ocorreu após a aprovação da Lei que estabeleceu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000, e o Decreto que regulamentou a Lei foi publicado anteriormente a sua criação, Decreto no4.340, de 22 de agosto de 2002.

A Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000, estabelece em seu Artigo 22, § 2º que: “A criação de uma unidade de conservação deve ser precedida de estudos técnicos e de consulta pública que permitam identificar a localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade, conforme se dispuser em regulamento”, complementado pelo § 3º: “No processo de consulta de que trata o § 2º, o Poder Público é obrigado a fornecer informações adequadas e inteligíveis à população local e a outras partes interessadas” (grifos nossos).

O Decreto no 4.340, de 22 de agosto de 2002, ratifica e regulamenta: “Art. 5º  A consulta pública para a criação de unidade de conservação tem a finalidade de subsidiar a definição da localização, da dimensão e dos limites mais adequados para a unidade. § 1º A consulta consiste em reuniões públicas ou, a critério do órgão ambiental competente, outras formas de oitiva da população local e de outras partes interessadas. § 2º No processo de consulta pública, o órgão executor competente deve indicar, de modo claro e em linguagem acessível, as implicações para a população residente no interior e no entorno da unidade proposta”(grifos nossos).

Segundo os ritos de criação de UCs, os estudos técnicos devem preceder sua proposição levando-se em conta as características socioeconômicas e ambientais para se definir qual a categoria da unidade. Entretanto, no caso do PNSV não ocorreu dessa forma. Mesmo confirmada a importância do uso da área para as famílias da região – a exemplo da coleta de flores e criação de animais – foi definida pelo órgão ambiental a criação de uma unidade de proteção integral que proíbe o extrativismo vegetal dentre outras atividades em seu interior. Além disso, o parque foi delimitado após um sobrevoo da área realizado por técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e atingiu o território de mais de uma dezena de comunidades tradicionais[4].

A maioria dos comunitários só ficou sabendo da existência do parque e das implicações do mesmo para suas vidas quando, a partir de 2007, assumiu a gestão da unidade uma esquipe técnica que no afã de implantar a unidade a qualquer custo, desconsiderou a condição de comunidades tradicionais e violou direitos previstos por lei nacionais através de práticas como ameaças, constrangimentos, intimidações, destruição de plantações e instalações familiares. Sem entendimento do que estava acontecendo, os comunitários tiveram seus modos de vida criminalizados e sujeitos a multas e prisões. Cabe ressaltar que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário, promulgada pelo Decreto no 5.051, de 19 de abril de 2004, que tem força constitucional e estabelece direitos as comunidades tradicionais, bem como, o Decreto no 6.040, de 07 de fevereiro de 2007, que estabelece a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais são anteriores a esta época.

Organização e reivindicação de direitos pelas comunidades tradicionais

Com o tempo, as comunidades tradicionais atingidas pelo PNSV foram compreendendo a política de criação de unidades de conservação e tomando consciência dos seus direitos. No início de 2010, a partir de debates e reflexões sobre os conflitos socioambientais envolvendo comunidades tradicionais na região de Diamantina e a violação de seus direitos, foi criada a Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (CODECEX). Representantes das comunidades atingidas pelo PNSV compuseram a CODECEX e impulsionaram ações no sentido de contrapor as posturas ostensivas dos gestores do parque e na busca da garantia dos seus direitos. Buscaram assegurar seus direitos junto ao Ministério Público Federal, a Defensoria Pública Federal e a Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) e protocolaram reivindicações junto a Presidência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelo parque.

É notória a ausência das ações do Estado brasileiro junto à essas comunidades tradicionais da região. Isso é expresso, por exemplo, pelo baixo acesso a políticas públicas básicas e muitas das justificativas oficiais referem-se à dificuldade de acesso e longas distâncias físicas. Entretanto, para garantir metas e compensações ambientais o mesmo não se observa. Para muitos dos moradores das comunidades atingidas, a chegada deste parque significou a primeira vez em que o Estado nacional marcou forte presença em suas vidas. Isso se deu de forma ostensiva, expropriatória e violando direitos humanos.

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As reivindicações das comunidades referem-se ao óbvio, que já deveria ter sido realizado pelos órgãos responsáveis, mesmo antes da criação da unidade conforme previsto em lei: que sejam reconhecidas como tradicionais; que sejam ouvidas, como prescreve a legislação; que sejam realizados estudos com a participação das comunidades apontando as possibilidades de continuidade do uso tradicional do território, ou seja, as possibilidades de recategorização do parque (unidade de proteção integral) para unidade de uso sustentável e a desafetação de áreas que não justifica pertencer a qualquer categoria de unidade de conservação ou que esteja sombreando com territórios quilombolas; enfim, que as comunidades não sejam excluídas socialmente, mais sim que participem da conservação ambiental.

Mesmo após um representante do  ICMBio ter declarado publicamente que a criação desta unidade de conservação como parque foi um erro; do parecer da Sexta Câmara do Ministério Público Federal ter apontado a necessidade e pertinência de recategorização da unidade; da CODECEX ter recolhido 687 assinaturas de comunitários reivindicando a constituição de um Grupo de Trabalho para a realização de estudos visando à redefinição dos limites e da categoria da unidade; e do Grupo de Trabalho ter sido constituído por determinação da Presidência do ICMBio, há dificuldades e resistências para que as reivindicações dos comunitários sejam atendidas.

Ocorrem tentativas de desqualificar e deslegitimar os representantes da CODECEX; há tentativas de desvio do objeto central das reivindicações, ou seja, de aprofundamento nas possibilidades de recategorização do parque; e o próprio Grupo de Trabalho não dispõe das condições que garantam seu pleno funcionamento, principalmente em relação a disponibilidade de recursos financeiros para viabilização dos trabalhos necessários. Há, inclusive, quem diga que não existem conflitos entre as comunidades e o parque, que estes foram forjados por terceiros, pois os comunitários recebem e dialogam com os atuais gestores da unidade quando esses chegam às suas comunidades. Antes de se fazer tais afirmações, é necessário entender o contexto histórico, os princípios e valores destas comunidades e o poder simbólico do qual é imbuído um gestor público alçado na condição de representante do Estado brasileiro perante esses grupos.

Conservação ambiental e uso sustentável

Alguns ambientalistas insistem na velha concepção de que para conservar a natureza é necessário retirar o ser humano, imputando às comunidades tradicionais o preço desta conservação ao serem expropriados seus meios e condições de vida. Em todos os biomas brasileiros experiências demonstram que a integração ser humano-natureza em sistemas fundamentados nos princípios da agro-ecologia possibilita a conservação ambiental, a geração de renda e a melhoria nas condições de vida das pessoas.

Este debate não pode ser feito a partir da perspectiva produtivista-reducionista utilizada pelo agronegócio do tipo produção/ha, renda/ha, etc. Os sistemas agroextrativistas e os modos de vida das comunidades tradicionais são muito mais diversificados e complexos. Embora para algumas famílias a comercialização dos produtos do extrativismo seja a principal fonte de geração de renda, ela não é a única e a vida das pessoas não são mantidas e resumidas, unicamente, a esta fonte de renda. Há que serem feitos, sim, estudos com a participação dos comunitários sobre as diferentes formas de manejo, técnicas e estratégias que possibilitem o uso sustentável dos recursos. No entanto, a ausência ou lacunas de conhecimentos e, até mesmo, alguns entraves legais não podem ser motivos para impedir a continuidade de uso do território pelas comunidades tradicionais e a efetivação de seus direitos previstos na legislação.

Ao mesmo tempo, afirmações descontextualizadas são apontadas no intuito de defender o indefensável – a legalidade deste parque e sua legitimidade social. Assim como, soluções superficiais são apontadas como receitas de sucesso para o futuro das comunidades fora de seus territórios. Há que se ressaltar dois aspectos. O primeiro, refere-se à pluralidade de atividades desses grupos que confere maior flexibilidade perante os contextos internos e externos à família sendo, portanto, importante estratégia econômica a viabilizar a reprodução sociocultural das famílias ao longo do tempo. O outro, é que há uma tentativa clara de despolitização do processo em questão e de legitimação da expropriação territorial e violação de direitos ora em curso.

Certamente, a paisagem, a beleza cênica e a biodiversidade não serão sucumbidas por unidades de conservação de uso sustentável. Pelo contrário, poderão ser reafirmadas tendo as comunidades locais como aliadas a viabilizar o cuidado com esta área alicerçado na ancestralidade, na noção de pertencimento e na proximidade cotidiana com seus lugares de vida. E os turistas, se acessarem a região, terão a oportunidade de conhecer os povos, tradições e histórias que habitam e conservam esta região através de gerações. Nesse sentido, as comunidades propõem abertura ao diálogo: “nós somos a favor da preservação da natureza e fizemos isso a vida inteira (…). A questão é que nós não queremos ser excluídos da preservação”. A demanda apresentada por uma liderança comunitária afirma a necessidade da noção de sustentabilidade ser tomada, também, por sentidos de justiça, democratização e diversidade cultural.

[1] Segundo Machado Filho (1985, p. 20) “Até 5.000 escravos chegaram a ser empregados nos serviços de Extração” de diamante durante o “Regimento Diamantino” – Regime especial de domínio da Coroa Portuguesa na região de Diamantina, MG, que durou cerca de 70 anos entre os séculos XVIII e XIX.

[2] Formações rochosas, tipo gruta, que permite acomodações e abrigos das intempéries naturais.

[3] Em consonância com os estudos de ALMEIDA, A. W.B. (2006) Terras de quilombo, terras indígenas, “babaçuais livres”, “castanhais do povo”, faxinais e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas.

[4] Como evidenciado pelos estudos de MONTEIRO, F. T. (2011)  Os(as) apanhadores(as) de flores e o Parque Nacional das Sempre-vivas (MG): travessias e contradições ambientais.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Trekking no Parque Parque Sempre-Vivas é destaque em revista

Fonte: REvista Go Outside

Descubra o Brasil em cinco trekkings imperdíveis que passam por alguns dos vales mais bonitos do país

Lugar quase intocado e ainda pouco explorado, este vale é repleto de paisagens dramáticas da serra do Espinhaço e de muita água, que juntas proporcionam cenários incríveis. O Rio Preto, que leva esse nome por causa de suas águas límpidas, porém escuras, fica entre os municípios mineiros de Diamantina e Buenópolis. Quase todos os trekkings por lá começam no pequenino e hospitaleiro vilarejo de Macacos. Para se chegar até a comunidade, o ideal é fretar um carro com motorista em Diamantina, já que o ônibus só vai até o distrito de São João da Chapada, distante 22 quilômetros do início da caminhada. Logo nos primeiros quilômetros já começa o verdadeiro desafio: a trilha em si. Falta de sinalização, nenhuma ponte e muito carrasco, nome local da vegetação espinhenta que cresce em meio às rochas, aguardam os mais corajosos. Mas não demora para que o passeio comece a valer a pena – quando se avista o conjunto de formações rochosas da serra do Galho, que atinge mais de 1.500 metros de altitude. O primeiro pernoite, em acampamento, é feito nas proximidades do Ranchão do Rio Preto, uma encruzilhada que serve de apoio para cavalgadas vindas do sertão em direção a Diamantina.

O segundo trecho é bastante remoto, daí a importância de se estar com alguém que realmente domine o trajeto, como o turismólogo e guia Felipe Ribeiro (serrasertao.com.br; tel. 38-3531-9726). A serra do Rio Preto segue o vale e se estende até uma área alta e plana, os campos da Santa Rita, onde é montado o segundo acampamento. Próximo à comunidade está a cachoeira de Santa Rita, uma das mais bonitas. Nesse ponto podem ficar aqueles que não quiserem percorrer a parte mais difícil da trilha, pois existem estradas para veículos 4x4 que dão acesso à Diamantina e às cidades de Augusto de Lima e Buenópolis. De Santa Rita em diante, o vale do Rio Preto forma um cânion. A melhor alternativa é descer pela estrada jipeira da serra de Minas, que, apesar de se distanciar do Rio Preto em alguns momentos, atravessa campos e veredas de extrema beleza. Tente incluir em seu roteiro um mergulho no poço da cachoeira do Brejinho, no próprio Rio Preto. De lá, se pode partir para uma das comunidades turísticas da região: a Vila de Águas de Santa Bárbara ou o Arraial de Curimataí.

Clique aqui e conheço os demais trekkings citados pela revista.

domingo, 13 de outubro de 2013

Unidade de conservação e sua aceitação local: contradições no Parque Sempre-Vivas

Autor: Rodrigo Zeller –  no site O Eco – dica especial do Michel Becheleni

Foto-2O estabelecimento de unidades de conservação (UCs) requer um diálogo contínuo com a sociedade, sobretudo com as famílias diretamente atingidas pelos benefícios e alterações de uso propostos. Esse diálogo entre a equipe da unidade e seus vizinhos depende, antes, de um entendimento comum, de que uma UC, como os parques e reservas biológicas, atende a necessidades ambientais com um forte viés social, ambos em longo prazo. Sem este entendimento, a busca participativa por soluções locais pode envolver desvios consideráveis.

Um exemplo disso está ocorrendo em relação ao Parque Nacional das Sempre-Vivas, criado em 2002 e com cerca de 124 mil hectares. Trata-se de uma área de enorme importância, abrigando amostras representativas de campos rupestres da Cadeia do Espinhaço em Minas Gerais, reconhecidos pelo seu alto grau de endemismo, além de outros ambientes associados. Este parque é um campo fértil também para pesquisadores, que documentam sua riqueza biológica única, atesta a equipe do parque, feliz pela área ser escolhida com frequência para prestar serviço tão importante à Ciência e à sociedade. Muitas nascentes e cursos d'água correm limpos no parque e, uma vez fora da unidade, garantem o abastecimento de muitas famílias, viabilizando atividades produtivas na região e o divertimento da população.

O parque representa 64% da área de proteção integral do Mosaico de Áreas Protegidas do Espinhaço: Alto Jequitinhonha-Serra do Cabral, uma iniciativa recente para ajudar a manter um patrimônio natural de valor enorme, acrescido ainda de três UCs de uso sustentável criadas para auxiliar no ordenamento territorial. Pelos seus atributos e serviços ambientais, o Parque Nacional das Sempre-Vivas tem um valor inestimável para a sociedade como um todo, para a região onde se insere e, sobretudo, para as comunidades e famílias próximas. Enfim, existem muitos elementos para viabilizar um trabalho importante de Conservação associado ao incentivo por um desenvolvimento regional integrado e duradouro.

Clique aqui par ler o artigo completo.

Foto: Felipe Ribeiro/Associação Montanhas do Espinhaço

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

São João da Chapada: hospitalidade, beleza e história



O distrito de São João do Chapada, localizado a 27 Km de Diamantina, foi fundado em 1833 após a descoberta de grandes quantidades de diamantes na região. O local está situado no alto divisor das águas das bacias do Rio Pardo, afluente dos Rio das Velhas, e do Ribeirão Caetemirim, tributário do Rio Jequitinhonha.

Logo na entrada, o que nos chama atenção é o cruzeiro da cidade, provavelmente um dos mais altos do país, construído em peça única de madeira e com uma vista muito bonita da toda a região. Além da hospitalidade dos habitantes, São João da Chapada tem uma grande importância cultural pelos registros dos vissungos, cantos de trabalho escravo que eram ouvidos nos serviços de mineração, característicos da região. O tema é alvo de várias pesquisas devido a sua importância como expressão música africana em extinção.

Saindo em direção à localidade de Macacos, uma das entrada do Parque Nacional das Sempre Vivas, podemos apreciar paisagens maravilhosas formadas por imensas formações rochosas, além de belos exemplares da flora, especialmente as sempre-vivas (pepalantus). Estranhamente, no meio daquela bela paisagem, nos deparamos com uma pista asfaltada de aeroporto, aproximadamente 1500 metros, utilizada pelos empresários diamantíferos. Além da pista abandonada, a extração do diamante deixou algumas áreas totalmente degradas que podem ser vistas eventualmente.

Sobre as formações rochosas, de aparência notável, contituem-se de paredões dispostos em cordões mais ou menos paralelos, que se estendem por gande extensão, com aspecto ruiniforme e grande presença de fendilhamentos na rocha. Área de grande interesse para caminhadas em cristas de serras.

Enfim, um lugar muito interessante, com belas paisagem, habitado por um povo mineiramente hospitaleiro, gentil e cheio de histórias.