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sábado, 7 de dezembro de 2013

Lá vai Saul Moreira

O Passadiço Vrtual está muito triste. Perdemos ontem um dos mais importantes incentivadores e colaboradore. Desde o início da criação do blog, ele nos brindava com textos, dicas, informações e links interessantes sobre Diamantina, sua história e sua cultura. Mesmo distante, morando em Belo Horizonte, Saul Moreira era presença contante por aqui com contribuições e comentários cheios de humor e inteligência.

Fica aqui registrado o nosso agradecimento e a manifestação de sinceros sentimentos aos familiares.

Tomamos a liberdade de reproduzir abaixo um dos textos mais saborosos que Saul compartilhou com os leitores do Passadiço Virtual durantes esses anos, um texto elegante e gostoso de ler.

Vá em paz querido amigo, sentiremos sua falta.

O reformador do Tijuco

Autor: Saul Moreira, pulicado no Passadiço virtual em 04/07/2012.

Não sei bem por que cargas d’água me lembrei disso hoje. Talvez porque tenho lido ultimamente um monte de “notícias” vindas do Tijuco sobre pessoas dizendo que a Cidade precisa disto, disso, daquilo, daquilo outro; que se deve fazer uma coisa, outra, mais outra… Qualquer hora um doutor “progressista” vai sugerir que no lugar do Mercado Velho deve-se construir um “xópim”, com ar refrigerado, escadas rolantes… Ou talvez transformar a praça num “párquim”, asfalto, vagas demarcadas…

De repente − quem sabe?− um mais saudosista, recém-retornado, depois de uns 50 anos, não sugerirá, ao contrário, fechar a universidade, mandar alunos e professores e funcionários pras cucuias; reabrir a zona boêmia no centro; voltar com o calçamento pé de moleque… Talvez vetar outra vez a entrada de negros, mulatos e militares no Acayaca… Do jeito que as coisas vão, não estranharei muito “ideias” desse gênero. Mas a lembrança que me veio agora é outra, embora tenha a ver.

Como sempre, não sei em que ano o fato se deu. Mas Diamantina passava uma fase difícil: garimpos se fechando, comércio apertado, muitas famílias “de bem” se mudando pra BH ou pra Sete Lagoas ou pra Montes Claros. O Japão dizia que lá não havia mais capital de giro, mas “dívida de giro” – se um quebrasse pra valer, seria a bancarrota de um monte (previsão que se confirmou pelo menos uma vez que eu me lembre). E nem se sonhava em ser patrimônio da humanidade.

O Pedrelina já não ia muito ao bar, e o Cica, sem o bom humor do pai, assumira o comando do “É Aqui o Seu Cantinho”. E o Cica conversava pouco com quem não conhecia. Atendia bem, sorria meio de lado, mas falava pouco, só o estritamente necessário. E o estritamente dele era bem restrito mesmo. Naquela tardinha, além de mim tinha só mais uns três ou quatro bebericando umazinha e provando umas bolas − umas com farda, outras sem, de acordo com o gosto do freguês − ou um naco de maçã de peito.

Pois eis que adentra o recinto um diamantinense dos recém-retornados à boa terra. Todo fagueiro e cumprimentador, como é característica desses “voltantes”. Crente que todo mundo o reconheceria de cara, depois de uns trinta anos sem dar as caras. Evidentemente, todos fingiram educadamente que o reconheciam. E o cara pede uma pinga, finge que entende daquilo. E pede uma cerveja, serve o copo de todos… E deita falação. E pede mais uma. O Cica vai devagar, serve, passa o pano no balcão. E o cara logo pede outra, e deita mais falação. Que vai fazer e acontecer. Vai modernizar o Tijuco. Que a Cidade precisa disso e daquilo e daquilo mais… Em São Paulo é assim; no Rio, assado; em Barcelona, um monte de trem adaptável a Diamantina. Na América, ele teve um monte de ideias aplicáveis…

Pra encurtar conversa: o sujeito resolve que tem que ir embora correndo, atrasado pra um monte de compromissos que já tinha arrumado pra aquela noite (Deus haveria de saber quanta coisa ocorreria naqueles tempos de paradeiro). Distribui o resto da cerveja no copo dos presentes. Paga e sai apressado, todo amigo de infância, a boca cheia de dentes, gola da camisa suja de gordura.

Faz-se um silêncio total no bar, nós esperando a reação do Cica. Ele passava e repassava o pano no balcão, cabeça meio de banda. Daí a pouco ri de lado e solta: − Como já tô careca de ver, daqui a um mês esse buta quer mudar mais coisa nenhuma aqui. Esperem só pra ver… E foi remexer devagar a carne cozida naquele “mostruário” quente em cima do balcão. E a gente explodiu as gargalhadas suspensas durante toda a falação do novo Reformador do Tijuco − naquele tempo a gente ria à toa à toa.

*Ilustração retirada do perfil de Erildo Nascimento no Facebook.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eleições em Diamantina: um “chutômetro”(?)

Autor: Saul Moreira, blog Micuim (13/07/2012)

Interessante o fato de apenas cerca de 7%dos 35.414 eleitores de Diamantina,conforme dados do TRE, serem oficialmente filiados a algum partido político. Não é coisa de se espantar demais, porque parece ser mais ou menos a média de todo o País, que ainda engatinha na tão sonhada e tão recente Democracia. Entretanto, pra quem gosta, tal percentual até que dá para se entabularem algumas especulações descompromissadas sobre um possível – possível, repita-se, não provável – resultado das próximas eleições majoritárias no antigo Tijuco.

Obviamente as coisas não funcionam deste jeito, e geralmente eleição não dá muita bola para a aritmética nem para a lógica. Porém, mero exercício especulativo, pode-se imaginar que, se o pleito próximo se resolvesse tão somente pelos fiéis filiados partidários −teoricamente os eleitores mais interessados e envolvidos na disputa eleitoral−, poder-se-ia já prever um resultado para a eleição majoritária.

O raciocínio baseia-se no número de partidos registrados em Diamantina e a respectiva quantidade de eleitores a eles filiados: PRP-1 filiado; PRTB-13; PMN-19; PHS-29; PSL – 32; PSC – 44; PC do B – 48; PTN-50; PRB-51; PSB-52; PSD-56; PV-61; PTC-67; PPS-93; PDT-106; PTB-139; PSDB-209; PR-221; DEM-235; PP-266; PMDB-345; PT-380. TOTAL: 2.515 filiados a partidos.

Considerando a hipótese de que o PR esteja vinculado a uma das maiores coligações (o registro no TSE ainda é dúbio), teríamos o seguinte resultado nas urnas, baseado em que somente os filiados a partidos votassem:

“Juntos por Diamantina”: PRB+PDT+PT+PMDB+PSL+PR+PRTB+PMN+PC do  B = 1.215 =48,3% dos votos.

“Diamantina Unida”: PP+PTB+PSC+PPS+DEM+PHS+PSB+PV+PSDB+PSD) = 1.184 =47,1% dos votos.

“União Participativa Defesa Dignidade do Povo Diamantinense”- PTN+PTC = 117 = 4,6%dos votos.

Por fim, esta “projeção” – que não é nada, não é nada, vai ver não é nada mesmo – possa talvez levar ao menos à conclusão óbvia da importância das coligações no atual sistema eleitoral, tanto na eleição majoritária quanto, e principalmente, na proporcional, em que o Coeficiente Eleitoral é fundamental para a eleição dos legisladores. E mais: ou os filiados partidários trabalham (com dignidade e respeito) pra valer desde já ou a coisa pode ficar ainda mais difícil em outubro. Depois, então, Inês estará morta. Restará somente o choro e o ranger de dentes… e por 4 longos anos.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O reformador do Tijuco

Autor: Saul Moreira, no Micuim.org.

Não sei bem por que cargas d’água me lembrei disso hoje. Talvez porque tenho lido ultimamente um monte de “notícias” vindas do Tijuco sobre pessoas dizendo que a Cidade precisa disto, disso, daquilo, daquilo outro; que se deve fazer uma coisa, outra, mais outra… Qualquer hora um doutor “progressista” vai sugerir que no lugar do Mercado Velho deve-se construir um “xópim”, com ar refrigerado, escadas rolantes… Ou talvez transformar a praça num “párquim”, asfalto, vagas demarcadas…

De repente − quem sabe?− um mais saudosista, recém-retornado, depois de uns 50 anos, não sugerirá, ao contrário, fechar a universidade, mandar alunos e professores e funcionários pras cucuias; reabrir a zona boêmia no centro; voltar com o calçamento pé de moleque… Talvez vetar outra vez a entrada de negros, mulatos e militares no Acayaca… Do jeito que as coisas vão, não estranharei muito “ideias” desse gênero. Mas a lembrança que me veio agora é outra, embora tenha a ver.

Como sempre, não sei em que ano o fato se deu. Mas Diamantina passava uma fase difícil: garimpos se fechando, comércio apertado, muitas famílias “de bem” se mudando pra BH ou pra Sete Lagoas ou pra Montes Claros. O Japão dizia que lá não havia mais capital de giro, mas “dívida de giro” – se um quebrasse pra valer, seria a bancarrota de um monte (previsão que se confirmou pelo menos uma vez que eu me lembre). E nem se sonhava em ser patrimônio da humanidade.

O Pedrelina já não ia muito ao bar, e o Cica, sem o bom humor do pai, assumira o comando do “É Aqui o Seu Cantinho”. E o Cica conversava pouco com quem não conhecia. Atendia bem, sorria meio de lado, mas falava pouco, só o estritamente necessário. E o estritamente dele era bem restrito mesmo. Naquela tardinha, além de mim tinha só mais uns três ou quatro bebericando umazinha e provando umas bolas − umas com farda, outras sem, de acordo com o gosto do freguês − ou um naco de maçã de peito.

Pois eis que adentra o recinto um diamantinense dos recém-retornados à boa terra. Todo fagueiro e cumprimentador, como é característica desses “voltantes”. Crente que todo mundo o reconheceria de cara, depois de uns trinta anos sem dar as caras. Evidentemente, todos fingiram educadamente que o reconheciam. E o cara pede uma pinga, finge que entende daquilo. E pede uma cerveja, serve o copo de todos… E deita falação. E pede mais uma. O Cica vai devagar, serve, passa o pano no balcão. E o cara logo pede outra, e deita mais falação. Que vai fazer e acontecer. Vai modernizar o Tijuco. Que a Cidade precisa disso e daquilo e daquilo mais… Em São Paulo é assim; no Rio, assado; em Barcelona, um monte de trem adaptável a Diamantina. Na América, ele teve um monte de ideias aplicáveis…

Pra encurtar conversa: o sujeito resolve que tem que ir embora correndo, atrasado pra um monte de compromissos que já tinha arrumado pra aquela noite (Deus haveria de saber quanta coisa ocorreria naqueles tempos de paradeiro). Distribui o resto da cerveja no copo dos presentes. Paga e sai apressado, todo amigo de infância, a boca cheia de dentes, gola da camisa suja de gordura.

Faz-se um silêncio total no bar, nós esperando a reação do Cica. Ele passava e repassava o pano no balcão, cabeça meio de banda. Daí a pouco ri de lado e solta: − Como já tô careca de ver, daqui a um mês esse buta quer mudar mais coisa nenhuma aqui. Esperem só pra ver… E foi remexer devagar a carne cozida naquele “mostruário” quente em cima do balcão. E a gente explodiu as gargalhadas suspensas durante toda a falação do novo Reformador do Tijuco − naquele tempo a gente ria à toa à toa.