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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Leia nesta semana na Voz de Diamantina

Capa (22)O editorial da edição 623, dedicado às comemorações do centenário de nascimento de padre Celso de Carvalho, lançou a perspectiva de que as homenagens ao nosso poeta maior permeassem todo o ano em curso e ganhassem mais força ainda nas terceiras terças-feiras de cada mês de julho, decretadas pela nossa Câmara Municipal como o Dia do Poeta e Seresteiro Padre Celso de Carvalho, para que prestemos justo e merecido tributo ao trovador cuja inspiração e encantamento pela terra da seresta o transformaram no mais diamantinense dos cidadãos nascidos em Curvelo. Nesta semana, duas poesias podem ser lidas na página 05 desta edição. Uma, de autoria de Édson Gandra, conterrâneo de padre Celso, e outra do acervo de preciosidades de Selma Reis. À semelhança do soneto Bandeira a meio-pau, de padre Celso, escrito por ocasião da morte de Juscelino e publicado na edição 623 da Voz de Diamantina graças à garimpagem de Geraldo Miranda em seu baú de raridades, impressionou-me o soneto que Selma Reis enviou a esta redação também composto pelo grande bardo sob o tristonho título Ao sepultarmos Tina Reis

Início do editorial da Voz de Diamantina - Edição 626, 10 de agosto de 2013

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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Centenário de nascimento de Padre Celso de Carvalho (16/07/1913 - 16/07/2013)

 

Neste mês de julho, mais precisamente na próxima terça-feira, dia 16, comemoraremos os 100 anos de padre Celso, lembrando, com imorredoura saudade e merecida reverência, esse curvelano de nascimento, mas diamantinense de coração, de vida, de vocação, de ministério sacerdotal (62 anos), de magistério, de inspiração de tantos e tão belos versos. Ele mesmo escreveu: “Fiz de Diamantina minha segunda terra-mãe. Que fazer, agora, senão cantá-la e amá-la?”

Reconhecidamente, foi-lhe concedida pela Câmara Municipal a honraria de “Cidadão Diamantinense” e, pela Academia de Letras e Artes de Diamantina, além das Palmas Acadêmicas, tornou-se o Imortal Patrono da cadeira número 20, por mim escolhido, ao ocupá-la, com muita honra como acadêmica na Alad.                                                                                                                      

Padre Celso aqui viveu a maior parte dos 87 anos que Deus lhe concedeu, residindo no Seminário do Sagrado Coração, para onde veio aos 14 anos de idade (esteve ausente o tempo em que estudou em Roma, onde foi ordenado sacerdote) e, falecendo em 17 de setembro de 2000, teve seu corpo sepultado (conforme o desejo que expressara) na Cripta da Basílica. Em total dedicação ao sacerdócio como teólogo, filósofo, professor, ele exerceu várias e diferentes funções que lhe foram designadas pelos arcebispos da nossa arquidiocese, sempre acatando com amorosa obediência, humildade e indiscutível eficiência. A inspiração poética que se manifestou desde sua juventude fez dele o incomparável e imortal poeta-trovador que cantou a vida, o amor, a saudade (ah! como distinguiu e definiu a saudade em suas trovas!). Cantou esta cidade, sua história, sua gente, suas escolas, suas igrejas, sua seresta, estas ruas serpeantes... Em cada verso colocou espiritualidade, fé ardorosa, sensibilidade, humor, perspicácia, espontaneidade, conhecimento, privilegiada criatividade para dizer “aquilo que outras pessoas desejariam dizer e talvez não consigam, mas o poeta consegue, porque o poeta é uma espécie de porta-voz dos outros”.

Padre Celso continua vivo e presente em sua obra filosófica, literária, poética, que não é vasta, mas valorosa. Vivo e presente na lembrança querida e amada dos nossos corações cheios de doces e eternas saudades. Toda Diamantina, cada pessoa que o conheceu, que com ele conviveu, que teve a alegria de desfrutar da sua amizade vai querer render-lhe esse preito de gratidão, reconhecimento e amor.  Nada mais justo que nos unirmos numa homenagem que festeje e aplauda a vida, os feitos, a figura do inesquecível padre Celso ,plenos da riqueza da tantos dons preciosos que o Senhor lhe confiou e que ele multiplicou, partilhou e compartilhou com tamanha simplicidade, modéstia, discrição. Embora cheio de sabedoria, foi sempre muito reservado para falar de si e de seus escritos e composições. 

Padre Celso foi o diamante de maior quilate cravado nesta terra diamantina, o sol que (mesmo no poente) sempre brilhou para cada um de nós e ainda aquece nossas almas com sua lembrança viva que ficou. Recitemos suas trovas, seus poemas... Cantemos “Diamantina em Serenata” que ele, junto com Lícia Pádua, compôs tão lindamente, tornando-se o hino da seresta diamantinense, e outras lindas poesias que se tornaram canções com músicas de Fabiano Pimenta, Conceição Reis, Edison Soares, Fernando Reis e tantos outros. Este tesouro não pode ficar guardado, para que padre Celso seja sempre lembrado e presente e para que os que não o conheceram, principalmente as novas gerações, possam ter o privilégio de reconhecê-lo como “lenda viva da nossa cultura”, patrimônio da nossa história, talento grandioso eternizado no tempo e na memória.

 

                Carinho,enlevo,doçura,

                Gratidão, suavidade,

                Recordação e ternura

                - Irmãos da minha saudade.

                          

 (Padre Celso de Carvalho)

 

Maria Célia Cavalcanti Gonçalves

 

 

Programa do Centenário de Nascimento de Padre Celso de Carvalho

Dia 16 de julho, terça-feira

Às 19h: missa na Igreja do Carmo

Às 21h: exposição e sarau sobre a vida de padre Celso no Teatro Santa Isabel

A seguir, seresta por “estas ruas serpeantes”

Voz de Diamantina - Edição 622 - 13/07/2013

No Centenário do Padre Celso de Carvalho (1913–2013)

 

                Usemos o esplendor sublime dos seus próprios versos

para iniciar este descolorido comentário:

 

“Saudade é amar, ainda,

Alguém que nem vive mais.

Por isto, a saudade é linda;

Por isto ela dói demais!”

 

É o que quem teve a honra de ser conterrâneo, amigo e contemporâneo de padre Celso de Carvalho (nascido Celso Avellar de Carvalho) está sentindo agora, quando se aproxima o centenário do seu nascimento. Ele veio ao mundo na Fazenda São Sebastião, em Curvelo (MG), no dia 16 de julho de 1913, filho de Saturnino Dias de Carvalho Júnior e Carmelita Avellar Carvalho.  Concluído o Curso Primário, na terra natal, foi cumprir sua vocação evangelizadora, ingressando no vetusto Seminário de Diamantina. Ordenou-se sacerdote em Roma, no dia 16 de abril de 1938, onde estudou cerca de nove anos.

De inteligência rutilante, sempre apegado aos livros, o modesto padre Celso, que nunca se despiu da surrada batina preta, que de tanto uso foi perdendo a cor original, tornando-se quase fouveira, acumulou um acervo cultural impressionante. Tornou-se, ainda na Cidade Eterna, pela Pontifícia Universidade Gregoriana, doutor em direito canônico, filosofia e teologia. Também se tornou astrônomo.

Era considerado um dos mais brilhantes membros da Igreja Católica e manteve-se humilde enquanto viveu. Sempre revelando no rosto uma seriedade que não correspondia ao seu coração generoso, ele se abria por inteiro quando em companhia dos amigos mais próximos, principalmente daqueles que se dedicavam às atividades lítero-culturais.

Poeta, biógrafo, filósofo, prosador e orador, na expressão maior dos vocábulos, era inexcedível como trovador; ele, J. G. de Araújo Jorge, Luiz Otávio e outros menestréis criaram o “Trovadorisno Brasileiro”, embrião da vitoriosa União Brasileira de Trovadores (UBT). Padre Celso admirava e acolhia os mais pobres e desvalidos, deixando para nós incontáveis páginas de lirismo, ternura e sentimentos fraternos, que não temos sequer a pretensão de analisar neste, modesto registro, apenas recordando “Orquídeas”, “Ciranda”, “Estas Ruas Serpeantes”, “Uma Tristeza... Só Triste...”  e “Sol das Almas”, que são instantes maiores  de sua lira...

Os últimos anos de vida, ele os passou em Diamantina, lecionando matérias que exigiriam pelo menos seis especialistas, no modelar forjador de padres daquela cidade, que era um dos seus encantamentos.        Habitava uma cela de pobreza franciscana, no próprio Seminário. Ali, rodeado de livros e sempre cheio de inspiração, recebia os amigos. O catre, a mesinha de cabeceira, a poltrona puída pelo longo uso e os livros de orações e de literatura eram a sua riqueza.  O que continha de seu, no mundo e no cubículo onde vivia. Mais à frente estava a janela de onde descortinava linda paisagem de pedras enormes e a vegetação nativa, com predominância das discretas sempre-vivas, mostrando ao fundo o majestoso Pico do Itambé, que mereceu tantas páginas suas! Foi por aquele Pico que Padre Celso de Carvalho mediu, a cada dia, a perda da visão... Ao amanhecer, abria a pesada janela, olhava aos longes e via que também a portentosa elevação parecia afastar-se para os longes, onde a vista não mais o alcançava... Coisas de poeta! Era a noite chegando para os seus olhos, cerrando para sempre as cortinas do mundo visível... Era a cegueira, que não foi capaz de toldar a luz esfuziante do seu estro, da sua alma de poeta e do seu amor a Deus! Como o Nordestino, ele logo descobriu que o pássaro de olhos furados cantava muito melhor e mais bonito!

Padre Celso partiu para o Eterno em 17 de setembro de 2000, em Diamantina, estando seu corpo sepultado na cripta da Basílica do Sagrado Coração de Jesus, daquela histórica cidade. Na Diamantina que ele amou tanto e à qual dedicou versos que se inscrevem entre os mais belos da língua portuguesa.

Com certeza, mas noites frias e enluaradas daquela terra, os acordes dos violões e as belas vozes em serenata invadem os muros do campo santo e as paredes das igrejas, acordando anjos e visitando os seresteiros que já dormem o sono dos justos! Noutro plano, vendo de novo o Pico do Itambé, padre Celso de Carvalho semeia sobre o lugar diamantes em forma de flores, regando-os com a chuva de luzes das estrelas que adornam o seu espírito! É pena que não possamos deixar aqui, também, a joia musical da inspirada musicista Lícia Pádua, que emoldurou a antológica canção “Diamantina em Serenata”, que nos faz percorrer, em visões de sonhos, as ladeiras do centenário e lendário Tijuco:

 

Quando, à noite, a linda lua

Torna as pedras cor de prata,

Diamantina sai à rua

Transformada em serenata.

 

Seresteiros indormidos,

Dedilhando violões,

Levam música aos ouvidos

E saudade aos corações.

 

A seresta apaixonada

Corre as ruas do Macau,

Capistrana, Carvalhada,

São Francisco e Burgalhau.

 

Essas ruas serpeantes,

É tão fácil entendê-las:

Descem doidas por diamantes,

Sobem ávidas de estrelas.

 

O Itambé, mesmo de longe,

Ouve o som quase em surdina,

Ergue as mãos azuis de monge

E abençoa Diamantina...

 

Se de um sonho nada resta,

Só saudade, só, mais nada,

Como é linda uma seresta

Numa noite enluarada!

 

José Augusto Faria de Souza

 

Voz de Diamantina - Edição 622 - 13/07/2013