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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

UFMG promove fórum sobre patrimônio gráfico em Diamantina

Fonte: UFMG

ForumGeraldoMorais_mecanico%20grafico.JPGO Museu Vivo Memória Gráfica, da UFMG, e a Associação do Pão de Santo Antônio vão promover, nos dias 10 e 11 de dezembro, em Diamantina, o Fórum Patrimônio Gráfico em Movimento.

Além de apresentar o trabalho de conservação, restauração e educação patrimonial desenvolvido no âmbito do Projeto Memória do Pão de Santo Antônio – que divulga práticas jornalísticas e tipográficas vinculadas aos jornais Pão de Santo Antônio e Voz de Diamantina –, o Fórum tem o objetivo de colaborar para a afirmação da noção de patrimônio gráfico, refletindo sobre aspectos materiais, técnicos, socioprofissionais e simbólicos que compõem o universo da produção tipográfica brasileira e latino-americana. O evento contará com a presença de especialistas das áreas de história da imprensa e do livro, de edição, de patrimônio e de conservação-restauração.

Desde 2013, as atividades do projeto formaram duas categorias de acervo: uma documental, constituída pelos exemplares dos dois jornais, impressos em tipografia de 1906 a 1990, e outra museológica, constituída pelo mobiliário e equipamentos que compunham a antiga tipografia.

Os dois acervos se situam em espaço de memória que, no passado, foi o palco de realização da produção das publicações. Em breve, o espaço será objeto de novo projeto museológico: a reativação da antiga tipografia ajudará a promover diálogo efetivo entre patrimônio material e imaterial – máquinas do passado, homens e mulheres do presente, técnicas em exercício.

Discurso e técnica
De acordo com os organizadores, o evento possibilitará “reflexão mais aprofundada sobre a relevância dos acervos locais para a compreensão histórica, discursiva e técnica do patrimônio gráfico nacional, promovendo, também, discussão mais ampla sobre as relações estabelecidas entre patrimônio material e imaterial”.

Serão abordadas ainda questões relativas à produção e à circulação de impressos efêmeros, à importância da constituição de catálogos de amostras históricas de fontes tipográficas e à permanência dos modos de fabricação do impresso próprios da tipografia (composição com tipos móveis, xilogravura, estereotipia etc.) no âmbito de uma lógica de produção liderada pelo offset e pela impressão digital.

Os participantes receberão certificados. O Fórum reserva 15 vagas de hospedagem e transporte para estudantes da UFMG, por ordem de inscrição. Informações e inscrições (gratuitas) devem ser feitas até 5 de dezembro, pelo e-mail forumpatrimoniografico@gmail.com.

Programação:
10 de dezembro, quarta-feira
10h às 12h30 – Associação do Pão de Santo Antônio
Abertura
Café com os tipógrafos. Na ocasião, a máquina impressora do jornal será colocada em funcionamento.
Apresentação do trabalho de restauração dos acervos.

14h às 17h – Teatro Santa Isabel
1ª Sessão (Histórias)
Coordenação: Sônia Queiroz, Faculdade de Letras da UFMG
Tania Regina de Luca, Unesp/Assis
A circulação de imagens no Rio de Janeiro de fins dos oitocentos, o caso da revista A Ilustração
James William Goodwin Júnior, Cefet-MG
O jornal Pão de Santo Antônio e o papel da imprensa em Diamantina no início do século 20

11 de dezembro, quinta-feira
9h às 12h30 – Teatro Santa Isabel
2ª Sessão (Patrimônios)
Coordenação: Ana Utsch, Escola de Belas-Artes/UFMG (uma das coordenadoras do evento)
Marina Garone, Unam/México
Del patrimonio bibliográfico al patrimonio tipográfico: historia de los tipos de imprenta apartir de los especímenes latinoamericanos (siglos XVIII–XX)

Bruno Guimarães Martins, Fafich/UFMG
Do typographo-editor ao leitor-tipógrafo: Paula Brito e a mecânica da autonomia
Yacy-Ara Froner, Escola de Belas-Artes/UFMG
A memória do gesto

14h às 18h – Teatro Santa Isabel
3ª Sessão [Processos]
Ações de preservação do projeto Memória do Pão de Santo Antônio
Ana Utsch – pesquisa e acompanhamento técnico-científico
Janes Mendes Pinto – conservação-Restauração
Diná Marques Araújo – digitalização/ catalogação
Aline Ferreira – digitalização do acervo documental
Dolores Belico – restauração/administração
Maria Dulce Barbosa – produção/consultoria gráfica
Geraldo Morais – restauração de equipamento gráfico
Márcia Betânia Oliveira Horta – educação patrimonial
Flávio Vignoli – design/tipografia

Encerramento
Paulo Célio de Almeida Hugo, prefeito de Diamantina
Walter Cardoso França Junior, secretário de Cultura, Turismo e Patrimônio
Juventino Ribeiro Barbosa, Associação do Pão de Santo Antônio

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Caderno temático sobre a impressora da Casa do Pão de Santo Antônio

Fonte: Perfil do Memória do Pão de Santo Antônio no Facebook

Ainda não leu o  Caderno Temático "A Impressora da Casa do Pão de Santo Antônio"? Ele já está disponível e sua leitura é gratuita!

Além de apresentar técnica e historicamente as diferentes modalidades de impressão tipográfica, o caderno traz, também, um ensaio fotográfico feito com a ilustre máquina da Casa do Pão.

Para ler ou baixar o Caderno, acesse: bit.ly/1syc63e

sábado, 2 de agosto de 2014

Olhar local: Iniciativa visa resgatar 80 anos da memória da tipografia e do jornalismo mineiro

Fonte: Jornal Hoje em Dia (clique aqui)

Olhar local: Iniciativa visa resgatar 80 anos da memória da tipografia e do jornalismo mineiroA libertação de Paris do domínio nazista desencadeia uma reação popular de júbilo em Diamantina. A carreira política de JK – bem como seus hábitos notívagos – é acompanhada em seus mínimos detalhes. Já a publicidade – por meio de ilustrações – aponta para uma fonte de estudos de variedades dos costumes e hábitos de consumo daquela época.

Esses fatos, que já fazem parte da história mundial e brasileira, estiveram sob o olhar vigilante de “O Pão de Santo Antônio”, jornal fundado em 1906 e sucedido, após a década de 1930, pelo “Voz de Diamantina”. Pois bem, cerca de 4 mil exemplares desses jornais tipográficos, impressos por esse método até 1990, passam, agora, por um processo de restauração, já em sua fase final.

Professora do curso de Conservação-Restauração da UFMG, Ana Utsch lembra que, além da importância dos jornais, relativa ao modo de produção tipográfica, o acervo tem uma relevância grande exatamente pelo fato de ser uma fonte da história do século 20 no Brasil e no mundo com a dimensão do olhar local. “Por exemplo: recentemente, identificamos, em um exemplar da década de 1940, uma exaltação que aconteceu em Diamantina para comemorar a retomada de Paris e a resistência francesa, e há uma narrativa descritiva com personagens. E todo o percurso político de Juscelino Kubitschek pode ser também identificado nesses jornais, desde o início de sua carreira política, na qual é apresentado quase sempre como um herói”.

Até anedotas da vida íntima de JK são encontradas nos exemplares, como o seu hábito de “não dormir”, explica Ana Utsch, que reforça a necessidade de conservação desse material histórico. “O projeto nasceu do desejo de conservar, restaurar preservar e divulgar um acervo relativo ao patrimônio gráfico de Diamantina que foi constituído através de longa atividade editorial com o nascimento do jornal ‘Pão de Santo Antônio’, criado pela associação Pão de Santo Antônio, em 1906, e impresso em tipografia até 1990”. De 1906 a 1933, o jornal circulou com o nome de “Pão de Santo Antônio”, mas sua edição foi interrompida e, quando voltou às bancas, como já dito, adotou o nome de “Voz de Diamantina”.

Em 2015, o Museu da Casa do Pão de Santo Antônio

O projeto de resgate é ambicioso: todo o acervo documental já foi totalmente digitalizado e vai se transformar numa espécie de biblioteca eletrônica, podendo ser consultada em qualquer lugar do mundo.

Não só. “Todo o material tipográfico está passando por um processo de restauração, os equipamentos remanescentes do jornal como prelo de provas, cavaletes com títulos para composição tipográfica, uma grande máquina impressora do século 19”.

Responsável pela coordenação de equipe de restauradores, designers, historiadores e museógrafos, Ana Utsch ressalta também que será criado um “museu ativo”: o Museu da Casa do Pão de Santo Antônio, previsto para o início do ano que vem. Nele, será produzido um jornal de memória dedicado à imprensa tipográfica e a temas específicos da história do jornalismo de Minas Gerais e do Brasil.

O jornal “Voz de Diamantina” circula aos sábados, é impresso em gráfica moderna – e mantém cativa uma legião de leitores. Caso de José Walter da Silva, assinante do jornal há mais de 40 anos. “O principal (motivo) é ajudar a instituição. Mas o interessante é que é uma voz local, que traz as coisas pitorescas da região”, diz o aposentado, 81 anos, assíduo leitor das crônicas do Quincas. Vale lembrar que a associação Pão de Santo Antônio, proprietária do jornal, mantém um asilo.

Editor do jornal há 14 anos, Joaquim Ribeiro Barbosa diz que a preocupação é abastecer o semanário com notícias da cidade e da região. “E também ter um senso crítico sobre a administração da cidade, principalmente por ser um patrimônio cultural da humanidade”, reforça Barbosa, 72 anos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Diamantina vai ganhar museu dedicado às artes gráficas

Fonte: Estado de MInas (clique aqui)

Restauração de exemplares do jornal Pão de Santo Antônio e recuperação de seu maquinário original já estão em andamento

“Patrimônio gráfico é categoria pouco conhecida, com estatuto pouco definido, mas a ser afirmada pela sua importância. O maquinário de uma tipografia, as caixas de tipos e os cavaletes para montar os textos letra por letra para serem impressos ainda não ganharam o valor histórico que deviam ter, mas não são sucata. Foi com esses equipamentos que se fez a difusão do impresso do século 15 ao 20”, ensina Ana Utsch, professora do curso de conservação e restauração da Escola de Belas-Artes da UFMG.

Argumentos que a pesquisadora apresenta com veemência, já que, no momento, coordena equipe de restauradores, designers, historiadores e museógrafos às voltas com projeto dedicado exatamente ao patrimônio gráfico: conservar, restaurar e reabilitar a antiga tipografia onde foram impressos os jornais Pão de Santo Antônio e A Voz de Diamantina durante 84 anos. A previsão é que as etapas de restauração do acervo documental e do maquinário estejam prontas em setembro.
À medida que vai sendo concluída a primeira fase do trabalho, em andamento desde fevereiro, começa a ser posta em andamento a segunda etapa. A partir de julho, o ateliê de trabalho dos pesquisadores, que funciona em espaço onde foi criada a publicação, vai ser aberto ao público. Em setembro, começam a ser realizadas no local as oficinas de tipografia. Atividades, explica Ana Utsch, que visam à consolidação de novo espaço cultural, com o objetivo de
criar o Museu Casa do Pão de Santo Antônio.
“Não vai ser um museu estático, mas ativo”, conta Ana Utsch. Além de exposições, oficinas e seminários, o público vai poder observar o antigo maquinário funcionando. O museu deve ser aberto em 2015, com o lançamento de publicação contemporânea: um jornal dedicado à memória do jornalismo tipográfico, impresso com a mesma tecnologia, que vai trazer textos (ensaios, anedotas, relatos, crônicas etc.) produzidos especialmente para o projeto.
O fato de o Pão de Santo Antônio ter sido publicado até 1990, em tipografia, é testemunho da resistência de tecnologia que já era incomum nos anos 1980. “Não foi mantida por saudosismo, mas por ser mais barato e viável, já que os responsáveis pela publicação tinham maquinário e recursos humanos para fazer o trabalho”, explica. Já foi realizado um encontro dos tipógrafos e impressores que trabalharam na publicação.
É parte do projeto a digitalização das publicações, que serão disponibilizadas em biblioteca e hemeroteca digital. “Nosso desejo é exaltar um patrimônio documental que conta acontecimentos que pontuaram a história política, social e cultural do
Brasil no século 20”, afirma Ana Utsch. Entre os temas que podem ser acompanhados pela publicação, exemplifica, está toda a carreira de Juscelino Kubitschek, o que sinaliza a importância histórica da preservação da memória do jornalismo tipográfico.
TÉCNICA “Todas as cidades antigas de
Minas Gerais tiveram alguma atividade jornalística tipográfica”, garante Ana Utsch, observando que o patrimônio gráfico merece atenção especial. Instituições ou pessoas que têm materiais ou acervos alusivos a esse legado, na opinião da pesquisadora, devem procurar profissionais ou instituições que possam dar apoio técnico para diagnóstico das coleções. “Foi assim que nasceu o projeto Memória do Pão de Santo Antônio”, observa.
A Associação Pão de Santo Antônio procurou a diretoria de Ação Cultural da UFMG, que viabilizou um diagnóstico sobre o estado de conservação dos acervos, feito pela restauradora Janes Mendes Pinto, com o apoio do Museu Vivo Memória Gráfica da UFMG. A partir do resultado foi elaborado projeto de recuperação e resgate patrimonial, que conseguiu recursos em editais de leis de incentivo à cultura.

MEMÓRIA

O jornal Pão de Santo Antônio foi criado em 1906, por associação com o mesmo nome, voltada para a assistência de idosos, que levantou recursos com a publicação. A partir de 1933, mudou de nome e se tornou A voz de Diamantina, veículo noticioso que funcionou até 1990, editado por tipografia. O projeto de restauração trabalha com acervo de jornais e equipamentos, como cavaletes tipográficos de madeira, tipos de chumbo, clichês, matrizes de xilogravura, que quase se perderam, ameaçados por precárias condições de conservação e guarda.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Leia nesta semana na Voz de Diamantina

Capa (17)Na edição da semana passada comentávamos sobre a pequena e despojada Sala dos Milagres em que se transformou a dispensa do Pão de Santo Antônio, testemunha silenciosa da generosidade do povo diamantinense. Desde seus primórdios o velho asilo pôde contar com a fartura na cozinha graças às doações que lá pingavam com a frequência diretamente proporcional às necessidades dos seus assistidos. E não faltaram também agasalhos, roupas de cama, utensílios domésticos, materiais de construção e recursos para a edificação das harmoniosas casinhas que se iam enfileirando nos dois lados da capela em cujo altar se entronizou a imagem do patrono da casa, o taumaturgo Santo Antônio.

Joaquim Ribeiro Barbosa - “Quincas”

Início do editorial da Voz de Diamantina - Edição 620, 29 de junho de 2013

Assinatura da Voz de Diamantina

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Quincas: (38) 3531-3129 e 8824-3584 - vozdediamantina@gmail.com

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Música e mineridade

Fonte: Blog Canta Minas.

Autor:  Fernando Brant - Compositor e cronista

Músicos brasileiros contemporâneos, chegando às nossas terras, costumam exclamar, de tanto ouvir a qualidade e sutileza das melodias e harmonias que ouvem por aqui, que Minas Gerais é “país da música”. Pode ser exagero, e é, se comparamos com outros territórios, no mundo, conhecidos pela grandiosidade de sua produção musical. Não queremos nos comparar aos grandes centros europeus de criação e difusão de concertos, sinfonias e tais, concebidos através dos séculos de cultura refinada. O velho mundo e sua bagagem são incomparáveis. Nossa idéia é mais modesta e se refere, essencialmente, aos sons criados e executados pelo nosso povo e que vêm desaguar no que conhecemos como música popular mineira e brasileira. É algo que corre no sangue de nossa gente e está presente em todas as situações de sua existência. O mineiro respira notas musicais e com elas torna mais amena sua batalha pela vida ao longo da História.

O conceito de música popular que hoje se reconhece não se confunde com o que se chama de folclore. O primeiro tem autor determinado e o segundo é de autoria coletiva ou desconhecida. Mas as duas são geradas no mesmo ventre, sua gênese se encontra na alma da população que veio aportar em nosso território. As duas vertentes, por terem a mesma origem, juntas, configuram o que pode ser percebido pelo viajante de hoje da mesma forma que o compreenderam os estrangeiros de ontem: a música, como ouro, corre nas veias de Minas Gerais.

Refletindo sobre o sentimento e a cultura dos mineiros, o poeta Affonso Ávila diz que “somos um povo festivo, extremamente criativo, temos uma visão sensual da vida, mas ao mesmo tempo somos recolhidos e conservadores do ponto de vista social e ideológico. É essa dualidade barroca, a meu ver, que caracteriza a chamada mineiridade” (ESTADO DE MINAS, caderno PENSAR, de 10 de março de 2007).

Essa ambigüidade se encontra em tudo o que botamos a mão, em tudo o que o mineiro se propõe fazer. É um andar com os pés bem firmes no chão e os olhos vislumbrando os sonhos, os projetos, a distância, a criação. É conviver e ser o barro do chão mas enxergar o mundo. Somos, os artistas mineiros, uma espécie de doido da montanha, a viver o cotidiano do nosso lugar e a contemplar a Terra e os homens, aqui do alto.Temos a alegria festeira, que se exprime em música nas cerimônias sacras e nas profanas. Sabemos festejar, mas a primeira impressão que guardam de nós é a de que somos tristes e macambúzios, fechados em melancolia, reza e dor. Somos isso e muito mais.

De onde vem esse jeito recatado e solene que é uma parte de nós? Virá da herança moura que, entranhada por séculos na península ibérica, chegou a nós pelo nosso lado português? Ou virá, também, do banzo que os negros trouxeram das terras africanas? Em momentos diamantinos de delírio, no meio das pedras e da paisagem tijucana que parece ter sido fundo de mar, inventei a hipótese de que os nossos pretos eram, já na África, habitantes do interior. Por isso já traziam, de lá do outro lado do Atlântico, a nostalgia do mar. Vindos do centro de um continente para o meio de outro, sina redobrada, sofriam em dose dupla a falta de mar.

A música que se faz em Minas Gerais é rica e diversificada. Não há uma maneira única de Minas fazer canções, ela é plural em seus conhecimentos e criações. Minas são muitas e muitos e variados são os mineiros. Os compositores surgem de todos os Gerais e trazem do interior a memória dos antepassados, os cheiros das terras, o sentimento amoroso das cidadezinhas plantadas entre vales, rios e montanhas. A síntese que se realiza, na Capital montanhesa, lugar para onde se desloca a maioria dos músicos, entre o rural e o urbano, o histórico e o contemporâneo, faz a riqueza dessa arte particular e universal. Minas Gerais é fonte. Assim como as águas brotamdo ventre das terras mineiras para formar os rios que vão se dirigir ao mar, e este verter parece inesgotável, os sons jorram de todas as latitudes de Minas.

É uma variedade impressionante de jeitos de ritmar e harmonizar, de construir versos e inaugurar temas. Chegam devagar, cautelosos, tímidos, silenciosos e cheios de conteúdo. Basta a primeira oportunidade de mostrar o instrumento para que tomem conta do pedaço. Vêm do oeste, do sul, no norte e do leste; da região central, dos vales dos rios Jequitinhonha e Doce, da zona da Mata. Os dedos, os sopros, as idéias que trazem são novidade, diferente do que já ouvimos mas, ao mesmo tempo, têm uma identidade enorme com tudo o que aqui se faz. É um mistério sempre presente no canto que se canta nas alterosas. Há uma identidade, a gente sabe que este fazer só pode ter sido criado por essas bandas. Mas é diferente, o que este faz é próprio dele, não é o mesmo que o cantar do outro.

Esta constatação eu pude fazer ao longo do meu caminhar pela profissão de escritor de canções. Eu me especializei em procurar palavras que se casem com canções. Ouço a melodia, com o ritmo e a harmonia, e procuro descobrir o que aquela beleza abstrata quer dizer. Os versos precisam se misturar amorosamente com os sons. Não é apenas a questão de respeitar as tônicas e o número de sílabas/notas. É necessário conhecer mais profundamente a alma da criação. Não se escreverá uma letra alegre para uma melodia triste, e vice-versa.

O primeiro passo é encontrar o mote, o que as pautas querem dizer. Nesta empreitada tenho vários parceiros, muitos mineiros. A prova evidente de que cada um, apesar de haver identidade entre eles, é um compositor original, com digital própria, eu encontro em nossas canções. O trabalho de cada um não se confunde. O resultado é que as letras que fiz e faço para Milton Nascimento são absolutamente diversas das que faço para Tavinho Moura. O mesmo se aplica às minhas parcerias com Toninho Horta, Wagner Tiso, Nelson Ângelo, Lô Borges, Beto Guedes e outros. Para fazer isso, não tive que abrir mão de minhas idéias, emoções ou princípios. Eu escrevi, sempre, o que me pareceu justo e se enquadrava no que a canção me solicitava. Até porque eu também sou produto dessa mistura maluca de mato e cidade, interior e metrópole, missa cantada e cantigas de roda, rádio Nacional e viola na roça, quintal e mundo. E as gerações novas, do centro ou do interior, continuam chegando com a bagagem entulhada de coisas raras, de visões sonoras especiais. Parece um moto-contínuo, cada um com suas novidades.

O fato é que há um movimento constante, muito maior do que no tempo em que eu pus o pé na estrada. Penso que o que fizemos e fazemos, incentiva a que mais gente surja, aceite encarar a aventura, trazendo seu modo de tocar e criar, seu canto seu discurso, seu recado.

Mas a história de Minas com a música é antiga. Deve ter havido primeiro, o cantar indígena, do povo que sempre morou por aqui. Os portugueses também tinham suas cantigas, a lembrança de seus festejos coloridos, sua história. E os negros vieram com uma contribuição extraordinária que marca a parte mais visível de nossa identidade. Ainda hoje existem pessoas que contestam a força da cultura, em Minas, no tempo da extração abundante de ouro. Tentam negar que onde a economia é forte há poder e onde há riqueza é que a cultura mais se desenvolve. A política maior está de braços dados com a cultura maior. Se havia a poesia dos árcades, que inaugurava o movimento poético no Brasil; se havia a biblioteca universal do padre Luiz Vieira; se havia Aleijadinho e sua escultura e arquitetura; se havia o mestre Atayde: por que razão não existiria uma política vigorosa, maior que uma simples manobra para não pagar impostos. Da mesma forma, se havia tanta arte, haveria de existir uma música do mesmo quilate.

É o que se comprovou muito tempo depois, nos anos quarenta do século vinte, graças ao trabalho de Curt Lang. Em seu artigo “La música em Minas Gerais: um informe preliminar”, publicado em 1946, ele revelou a existência de uma escola de compositores mineiros da época colonial. Aqui na música – como em Aleijadinho e Atayde - surge o criador mineiro e mulato, na pessoa de Lobo de Mesquita. Ele e outros, cujas obras foram encontradas, em sua maioria, nos arquivos do” Pão de Santo Antônio”, em Diamantina, foram então reconhecidos como gigantes da arte do povo mineiro. Com os músicos mineiros dos séculos 18 e 19 se restabeleceu a verdade histórica: tinha que existir música de qualidade naqueles tempos.

No mesmo “Pão de Santo Antônio”, uma outra musicóloga e pesquisadora, Odete Ernest Dias, decobriria, alguns anos depois, partituras criadas pela gente de Diamantina, no final do século 19. Músicas de cunho popular que os tijucanos compunham para alegrar suas festas, divertir sua vida. Uma das peças recolhidas por Odete era de autoria de um diamantinense ( pai de meu futuro professor de latim, José Altimiras) que, além de compositor, era um competente cozinheiro. Para comemorar a passagem do século 19 para o 20, ele preparou uma composição e um jantar para os amigos, alguns também músicos. Para a peça musical, ele escreveu partituras para todos os instrumentos necessários. E soltou a inventividade na criação dos pratos do banquete. Certamente, iguarias com frango, porco, angu, quiabo, ora pro nobis, doces e uma infinidade de quitutes da rica e diversificada cozinha da região.

A mesma dúvida que tivemos quando da chegada do século 21 eles tiveram em sua época. O novo século começaria em 31 de dezembro de 1900 ou na mesma data de 1901? Na dúvida, e como se tratava de diamantinenses que realçavam o lado festivo da mineiridade, repetiram a festança no ano seguinte.

Leia também: Música e mineiridade (2ª parte)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Museu do Diamante oferece projeto no Pão de Santo Antônio

Fonte: Museu do Diamante

O Museu do Diamante/Ibram oferecerá no período de dois meses um projeto piloto com atividades de encontros e vivências lúdicas voltadas especificamente aos internos idosos do Pão de Santo Antônio, em Diamantina(MG).

Consistirá em atividades de vivências que envolverá o corpo, o imaginário, objetos pessoais, autobiografias e as memórias individuais e coletivas, e outros, em busca da valorização das experiências pessoais acumuladas destes indivíduos residentes internos do Asilo.

As atividades práticas com linguagens diferenciadas como o bordado, a escrita, vídeo/depoimento, escultura, pintura e outros suportes possibilitarão aos participantes diferentes formas para expressar suas experiências de forma lúdica e dando, dentro das possibilidades e disponibilidade de cada um, um suporte para registro de suas experiências de vida.

Projeto: Museus e lugares da memória

Ministrante: Lílian Aparecida Oliveira

Local: Abrigos de idosos - Pão de Santo Antônio - Diamantina (MG)

Período: 16/05/2012 a 27/06/2012 (quartas-feiras)

Horário: 8:30 às 10:30 horas