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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Palestra “A influência negra em Diamantina”, no Museu do Diamante

Neste sábado, dia 17 de janeiro, o artista plástico Marcial Ávila e o pesquisador e músico Wander da Conceição farão uma palestra sobre a "Influência Negra em Diamantina", no Museu do Diamante.

Marcial Ávila falará sobre Xica da Silva, "Mitos e Verdades" e Wander Conceição falará sobre a influência do negro na musicalidade brasileira e diamantinense.

Estarão presente atores cariocas do grupo Banquete Cultural.

Participe!
Dia: 17/01/2015 (sábado)
Horário: 10h
Local: Museu do Diamante/Ibram - Rua Direita, 14 - centro - Diamantina/MG

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Resenha de pesquisa de Wander Conceição é publicada na Revista da Academia Mineira de Letras

Apresentação da Revista Ano 92º – Volume LXIX – 2014

Capa Revista AMLEstamos entregando ao público que nos acompanha mais um número da Revista da Academia Mineira de Letras, volume LXIX. Registramos, assim, o nonagésimo segundo ano de vida de um periódico que é uma síntese do pensamento dos integrantes da Casa de Alphonsus, Vivaldi e Murilo Badaró.

Por estas páginas já desfilaram as mais prestigiosas e autênticas expressões das letras e do jornalismo de Minas Gerais, mesmo do Brasil, porque a Revista não é uma porta fechada aos que se devotam ao nobre ofício em outros estados. A prova disso se acha neste volume, a que comparecem escritores e pesquisadores de várias regiões do país.

Assim pensando e fazendo, esperamos manter nossa periodicidade normal, contando com a colaboração dos atuais e dos próximos acadêmicos e de quantos, de qualquer parte do Brasil, tragam sua mensagem e o propósito de bem servir às letras e à cultura.

A influência mineira para o advento da bossa nova

Wander Conceição *

Em 1990, a editora Companhia das Letras lançou no mercado brasileiro o livro Chega de Saudade – a história e as histórias da Bossa Nova, autoria do jornalista Ruy Castro. Considerado a bíblia do mais expressivo movimento musical do Brasil reconhecido pelo mundo, o livro foi traduzido para vários idiomas e se tornou um best-seller. Nas páginas 146 e 147, o autor fez alusão à passagem de João Gilberto por Diamantina em meados da década de 1950 e informou que, naquele período, o músico baiano se comportou como um sujeito anacoreta excêntrico, trancafiado num banheiro, para desenvolver o ritmo que revolucionou a música popular brasileira e encantou o planeta.

Há que ponderar que o referido período diamantinense não foi objeto de pesquisa do jornalista Ruy Castro que, cumprindo o propósito de somente citá-lo, registrou em seu livro as informações a ele repassadas por terceiros. Contudo, a forma como se referiu a Diamantina propende a criar, facilmente, no imaginário do leitor que não conhece sua história, a idéia preconcebida de uma cidade desconhecida e inexpressiva, perdida entre as montanhas do interior do Brasil. Ao contrário, Diamantina é um referencial histórico, cultural e político da nação brasileira. Ofereceu contribuição singular para a formação, aprimoramento e evolução do Brasil, fator preponderante que justificou seu reconhecimento pela UNESCO, em 1º de dezembro de 1999, como cidade Patrimônio Cultural da Humanidade.

De mais a mais, a contribuição de Diamantina para o desenvolvimento da música brasileira vai muito além do fato de a cidade ter oferecido sossego e reclusão para João Gilberto realizar suas experiências. A bossa nova foi o resultado de um movimento de ruptura com os paradigmas que delineavam as canções populares do país. Em meados da década de 1950, consolidaram-se a renovação da linguagem, a renovação harmônico-melódica e a renovação do ritmo da música popular brasileira, cujos atores principais foram Vinícius de Moraes, Antônio Carlos Jobim e João Gilberto, respectivamente.

O enlace desses três elementos renovados gerou a bossa nova. Ao se considerar que essa fusão ocorreu, efetivamente, em 1958, emerge a figura do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, que havia feito a opção pelo estado democrático como prerrogativa de governo. No mesmo dia em que tomou posse na Presidência da República, 31 de janeiro de 1956, JK suspendeu a censura à imprensa, às rádios e televisões, e encaminhou uma mensagem ao Congresso, abolindo o estado de sítio, decretado pelo seu antecessor, Nereu Ramos. A democracia aparece como o quarto elemento que interferiu na concepção da bossa nova, visto que suscita um imponderável: será que a reboque de um regime político autoritário e repressor, com a imprensa amordaçada, as artes em geral teriam avançado naquele tempo, da forma como avançaram no governo democrático de JK?

Imponderável à parte, a verdade é que em seu governo evolveram as letras, a arquitetura, o urbanismo, a pintura, a informação, a pesquisa em diversos campos da ciência. Explodiu o cinema novo. Ocorreu um desenvolvimento que impulsionou a produção de riquezas nacionais. No esporte, Adhemar Ferreira da Silva Pudger conquistou a medalha de ouro do salto triplo, nos jogos olímpicos de Melbourne, Austrália, em 1956. O futebol brasileiro sagrou-se campeão mundial em 1958, na copa da Suécia. Maria Esther Andion Bueno alcançou o posto de tenista nº 1 do mundo, na conquista dos torneios de Wimbledon em 1959 e 1960, e a U. S. Championships em 1959. Éder Jofre conquistou o título mundial de boxe, na categoria peso – galo, no mês de agosto de 1960. Exatamente nesse cenário de esperança, entusiasmo e alegria, e sobretudo de credibilidade nas potencialidades nacionais, emergiu a bossa nova.

Entrementes, a preocupação de JK pelo estado democrático no Brasil não se deu de forma instantânea, como um clique repentino espocado no primeiro dia de seu mandato presidencial. Em depoimento concedido a Maria Victoria de Mesquita Benevides, para o projeto de história oral do Centro de Pesquisa e Documentação da História Contemporânea do Brasil – CPDOC, JK afirmou que seu senso democrático foi adquirido desde tenra idade, em conseqüência de sua origem modesta, situação que o ajudou a desenvolver, ainda muito jovem, os sentimentos de eqüidade e de justiça. Além desse motivo, citou o sistema administrativo repressivo instituído em Diamantina desde os tempos coloniais, construído sobre uma legislação impositiva, cuja rigidez terminou encorajando o povo diamantinense a desenvolver um apurado sentimento de independência e de liberdade, atributos tão inerentes à democracia. Concluiu sua explanação com a seguinte afirmativa:

Assim, quando perguntam por que desenvolvi esse sentimento democrático: eu bebi isso no leite, no café, no ar de Diamantina, nas serenatas da minha terra. Eu aprendi esse sentimento de liberdade e guardei com tanta força que, quando a providência, o destino me trouxe ao palco... [1]

No mês de maio de 1956, o Brasil já convivia com o estado democrático, quando os elementos constitutivos da bossa nova começaram a se entrelaçar. Vinícius de Moraes necessitava de um compositor que lhe escrevesse a música para sua peça Orfeu da Conceição, com o mesmo espírito modernizador que ele empreendera na adaptação feita na linguagem da peça original. O poeta havia convertido a lenda de Orfeu, uma tragédia grega, em uma representação teatral exibindo uma tragédia carioca. Orfeu, um semi-deus grego, virou um sambista negro da favela e foi inserido na agitação do carnaval do Rio de Janeiro. Diplomata, recém-chegado de Paris, Vinícius trouxera o livreto, com versos adaptados à sua versão, todo pronto. Faltavam as canções, nas quais o poeta colocaria as letras. Foi apresentado ao músico Antônio Carlos Jobim por Lúcio Rangel, no bar Villarino no Rio de Janeiro. Esse momento marcou o encontro da música e da poesia renovadas, que passaram a caminhar lado a lado com a perspectiva de modernidade que tanto se perseguia no país.

Na vanguarda do movimento modernizador da música nacional, Vinícius foi quem se destacou como o grande revitalizador das letras para as canções populares. O feito de impacto que complementou o processo de renovação da linguagem foi sua decisão em introduzir elementos característicos da poesia culta nos versos construídos para a música popular. Diversos críticos musicais, dentre os quais Tárik de Souza, creditam ao poeta Vinícius de Moraes o mérito da popularização da poesia culta, por intermédio de sua utilização na composição de letras para a música de massa.

Todavia, tal e qual o processo de opção pelo estado democrático ocorrido com JK, Vinícius de Moraes não tomou a decisão de popularizar a poesia culta, assim, num repente. Ao se recorrer à biografia do poeta, constata-se que sua formação tomou por base a tradição das famílias nobres do Rio de Janeiro. Recebeu educação conservadora desde os tempos de infância, estudando no Colégio Santo Inácio, de influência jesuíta. Agraciado com uma bolsa do Conselho Britânico, seguiu em 1938 para a Inglaterra, onde estudou língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford. Um escritor de formação genuinamente clássica não se encaminharia de maneira repentina para o universo da cultura popular, sem antes ter sofrido influências que contribuíssem para essa aproximação. Posteriormente, inclusive, Vinícius de Moraes chegou mesmo a se intitular “o branco mais preto do Brasil”, depois de estabelecer relações com o candomblé.

Corrobora o raciocínio anterior afirmativa do próprio Vinícius, em entrevista concedida a Zuza Homem de Mello, na qual o poeta relata que, após escrever algumas letras para canções populares, num período bastante curto de sua adolescência, afastou-se inteiramente desse estilo de composição, em decorrência de sua afirmação como poeta clássico no cenário nacional:

Bom, a partir daí, por ter-me tornado poeta no sentido mais clássico da palavra, abandonei totalmente a composição de música popular por me parecer na ocasião uma arte menor. Eu lembro que quando tirei o prêmio Felipe de Oliveira – um prêmio nacional de poesia – eu era muito moço ainda, tinha 21 para 22 anos e aquilo me subiu um pouco à cabeça. Fiquei me achando uma espécie de gênio nacional. Depois verifiquei que não era nada disso. Mas, talvez por ser um poeta conhecido e com livros publicados, deixei de lado a composição da música popular por muito tempo. [2]

Portanto, a inclinação para escrever uma poesia renovada para a música popular brasileira foi-se desenvolvendo em Vinícius de Moraes por intermédio de um conjunto de influências recebidas ao longo de sua vida, como aquelas inerentes ao ambiente boêmio e popular do Rio de Janeiro, com as quais o poeta conviveu. Dentre as influências recebidas, há que levar em consideração o seu relacionamento com vários agentes do movimento folclorista deflagrado na década de 1930, num país continental, com fronteiras internas permeáveis. A organização do estudo do folclore no Brasil somente se consolidou após a criação da UNESCO em 1945, que recomendou aos países membros um esforço no sentido de criar organismos voltados para o conhecimento de suas culturas populares. Era consenso entre os folcloristas que o conhecimento da sabedoria popular e sua interpretação coletiva são ferramentas de vital importância para a compreensão e manutenção da identidade nacional.

Esse movimento se organizou no seio do Palácio Itamaraty, exatamente a instituição à qual Vinícius estava vinculado, exercendo a função de diplomata. Os intelectuais brasileiros perceberam, na recomendação da UNESCO, a grande chance de realizarem um velho sonho, de modo que, logo depois, articularam o Movimento Folclórico Brasileiro. Contudo, a desilusão com experiências anteriores obrigou-os a reconhecer que sua antiga intenção de registrar e proteger as manifestações folclóricas somente poderia ser alcançada, se o órgão destinado a essa tarefa tivesse algum prestígio junto ao centro de poder. Assim, para dar visibilidade ao movimento, a ordenação para viabilizar esses estudos foi promovida, estrategicamente, no interior do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura – IBECC, órgão sucursal da UNESCO, com sede no Palácio Itamaraty, do Ministério das Relações Exteriores. Por se tratar de uma instituição de prestígio, o Itamaraty seria o canal mais apropriado para se atrair visibilidade junto ao poder central do país, o caminho ideal para atingir o reconhecimento do estudo do folclore no Brasil.

Por intermédio do professor Renato Almeida, folclorista e também diplomata, criou-se a Comissão Nacional do Folclore em 1947, anexa ao IBECC. Para ampliar e ramificar suas ações em todas as unidades da federação, instalaram-se comissões estaduais, filiadas à Nacional. O estado de Minas Gerais foi o primeiro a instituir sua comissão, escolhendo o diamantinense, filólogo e folclorista, professor Augusto Aires da Mata Machado Filho para presidi-la. Junto com grandes estudiosos do folclore nacional, dentre os quais, Luis da Câmara Cascudo e Dante de Laytano, o professor Aires e a Comissão Mineira de Folclore ajudaram a deflagrar um grande movimento de organização do folclore no Brasil, que culminou com as Semanas Nacionais do Folclore realizadas em 1948, 1949 e 1950, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, respectivamente. Depois vieram os Congressos Brasileiros de Folclore, no Rio de Janeiro em 1951 e em Curitiba em 1953. Por fim, o Congresso Internacional de Folclore, realizado em São Paulo, em 1954. Esses certames influenciaram toda a intelectualidade brasileira, e Minas Gerais se fez representar em todos eles, levando sua imensa contribuição.

Acrescente-se a esses fatos a visita do músico mineiro Ary Barroso a Belo Horizonte, em fevereiro de 1943, onde realizou apresentações no Cassino da Pampulha e no Cine Teatro Brasil. Justificou aquela viagem, do Rio de Janeiro para o seu estado, pela necessidade de “voltar a sua atenção para as riquezas inesgotáveis do folclore mineiro, anunciando visitar as mais históricas e tradicionais cidades de Minas Gerais”. A primeira cidade histórica mineira que Ary Barroso visitou foi Diamantina, a convite de JK, então prefeito de Belo Horizonte. Permaneceu uma semana na cidade, onde ofereceu dois concertos artísticos em companhia da cantora Dolores Bragança, intérprete consagrada das canções folclóricas brasileiras. Naquela semana, Ary Barroso conviveu com as tradições locais e coligiu elementos do folclore diamantinense, cumprindo o objetivo de sua visita. Diga-se de passagem, Ary Barroso foi um dos mais importantes precursores da bossa nova, juntamente com Johnny Alf e João Donato, dentre outros.

Foi um Vinícius de Moraes seduzido por essas influências e despido de conceitos padronizados que encontrou Tom Jobim em maio de 1956, quando o Brasil terminara de fazer a opção pelo estado democrático. Ao discorrer sobre a evolução por que passou a cultura brasileira durante o governo JK, o jornalista Cláudio Bojunga fez uma digressão à mitologia grega, para destacar a situação privilegiada do Rio de Janeiro, ponto de convergência das diversas culturas regionais brasileiras. Em sua afirmativa, utilizou a figura de Prometeu, representante do trabalho, da produtividade, do progresso e do desempenho, aliada à figura de Orfeu, representante da alegria, da satisfação e do prazer:

E então, no Rio, nos últimos anos em que a cidade foi capital, Orfeu se aliou a Prometeu numa onda renovadora nas produções do espírito. Não foi fenômeno carioca, mas brasileiro: o Rio foi apenas o ponto de encontro de paulistas, baianos, maranhenses, mineiros, capixabas, piauienses, paraibanos, pernambucanos etc. Nessa forja surge uma nova poesia, uma nova pintura, um cinema novo, um novo samba, um jornal novo. [3]

Quando Lúcio Rangel optou por apresentar Tom Jobim ao poeta Vinícius de Moraes, tinha consciência de que estava indicando um músico diferenciado e, principalmente, ousado que, naquela altura, já introduzira elementos peculiares à música erudita no universo da música popular. Por essa razão, seria o músico ideal para compor as melodias das canções para a peça Orfeu da Conceição. Tom Jobim utilizava acordes dissonantes com maestria, costume que ainda não era habitual no acompanhamento das canções populares tradicionais. Havia desenvolvido também a habilidade de empregar o processo de inversão da posição basilar dos acordes, recurso que ajuda o acompanhamento sobressair, ao gerar uma sensação de dissonância naquilo que era consoante na essência. Tradicionalmente, no acompanhamento da música popular brasileira, sempre se utilizavam os acordes em sua configuração básica.

Há que destacar, entretanto, que, quando essas experiências de inserção de elementos novos na construção, na harmonização e no acompanhamento das músicas populares foram efetuadas, Tom Jobim já vivenciava, no Rio de Janeiro, uma atmosfera totalmente propícia a novos experimentos, paulatinamente construída, ao longo de um processo gradativo de evolução da musicalidade brasileira. Não obstante sua genialidade indubitável, o Rio era a capital federal, além de ostentar o status de cartão postal do Brasil, para onde convergiam, e ainda convergem, todas as influências, tanto exteriores ao país, quanto as interiores originadas de suas mais variadas regiões. Portanto, são muitas as influências que possibilitaram estabelecer-se no Rio de Janeiro, na década de 1950, um ambiente musical propício ao surgimento de uma “onda renovadora”, neste aspecto, enriquecida, de forma notável, pelo talento de Tom Jobim. Ao estudar a musicologia brasileira, o musicólogo alemão Francisco Curt Lange se opôs às teorias que insistiam em isolar a música que se desenvolveu no Rio de Janeiro do fenômeno musical ocorrido em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX, por meio da seguinte advertência:

Onde se têm visto, na História da Humanidade, elevar-se num deserto musical um gênio, quando o gênio é produto dum desenvolvimento prévio e dum ambiente favorável às suas condições excepcionais? Jamais existiram ilhas culturais isoladas, autônomas, que não recebessem influências de outros centros, que não as tomassem para si por necessidade de se superarem. As teorias do surto de genialidades solitárias e de movimentos autônomos são apenas conseqüências dos credos chauvinistas, ignorados completamente na Europa dos neerlandeses em Veneza e da Ópera italiana em São Petersburgo, Dresden, Munique e Viena, de Handel na Inglaterra, e dos músicos espanhóis ao serviço de Teodósio II, em Vila Viçosa. [4]

De acordo com as pesquisas publicadas por Curt Lange, cada associação religiosa leiga criada em Minas Gerais promovia, anualmente, uma festa dedicada ao seu santo ou santa de devoção. Além dessas festas, com suas procissões, o calendário litúrgico era vasto, pois se realizavam, ao longo do ano, ladainhas, novenas, terços, tríduos, trezenas, missas cantadas, culto das almas, ofício de Trevas etc. Havia, ainda, as procissões maiores como os cortejos do santo padroeiro do lugar, da Semana Santa, Corpus Christi e Santíssimo Sacramento, como também as necessidades musicais particulares da sociedade civil. Em todas essas ocasiões, encomendavam-se músicas aos mestres. Remunerados pelas associações religiosas, os músicos mineiros desempenhavam seu ofício de forma estritamente profissional. Desse modo, no século XVIII, desenvolveu-se em Minas Gerais uma atividade musical de excepcional qualidade, sem precedentes na formação de todo o continente americano, conforme avaliou Curt Lange.

Essa expressividade musical deixou legado riquíssimo no estado, perpetuando-se pelos séculos seguintes. Contudo, sistematicamente, desde o século XVIII, uma avalanche de músicos mineiros se transferiu para o Rio de Janeiro, ajudando a alterar, de forma substancial, o ambiente musical fluminense. As crises ocorridas na mineração em Minas Gerais, que reduziram drasticamente a capacidade financeira das associações religiosas, foram determinantes para essa migração. Em Diamantina, especificamente, houve a segunda crise dos diamantes, na virada do século XIX para o XX, somada, no mesmo período, ao processo de romanização da Igreja Católica, que retirou a autonomia e independência das associações religiosas, subordinando-as à autoridade dos bispados. Nesse contexto, Diamantina também exportou diversos músicos para o Rio de janeiro, dentre eles, dois expoentes de primeira grandeza: José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, considerado um dos mais importantes músicos pré-clássicos das Américas, e o maestro Francisco Nunes Júnior, fundador da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, juntamente com o maestro Francisco Braga, compositor do Hino à Bandeira.

Tom Jobim bebeu na fonte de um ambiente musical revigorado por todas essas contribuições para produzir uma renovação harmônico-melódica que, embora se aliasse a uma renovação na linguagem para produção do musical da peça Orfeu da Conceição, necessitava de um preparo glutinoso que fundisse essa união inovadora de forma hermética. Esse terceiro elemento foi desenvolvido em Diamantina por João Gilberto.

Ao se colocar em prática o binômio “Energia e Transportes”, que norteou o programa de JK à frente do governo de Minas Gerais, quatorze estradas-tronco estaduais foram abertas para ligar Belo Horizonte a todos os quadrantes do estado. A principal, com pouco mais de 900 km, foi a rodovia Belo Horizonte – Salto da Divisa, passando pela região nordeste de Minas e desembocando na rodovia federal Rio – Bahia. Diversas empreiteiras foram contratadas, respondendo pelo serviço em trechos específicos da rodovia. Para o trecho de Diamantina até seu distrito de Mendanha, foi contratada a empreiteira Companhia Mineira de Obras, cujo engenheiro responsável pelo serviço era Péricles Rocha de Sá, casado com Maria da Conceição Oliveira Sá, conhecida por Dadainha, irmã de João Gilberto.

Afastando-se do Rio de Janeiro com o intuito de aliviar o processo depressivo de que padecia, João Gilberto passou duas temporadas morando com sua irmã Dadainha, em Diamantina. A primeira fase foi de setembro de 1955 a junho de 1956, data em que a Companhia Mineira de Obras suspendeu seus trabalhos na variante da Serra de São Francisco e o Dr. Péricles pôde viajar com a família para a Bahia. Ao se confrontarem algumas informações orais, com registros efetuados em fontes primárias, torna-se possível afirmar, categoricamente, que João Gilberto passou outra fase em Diamantina, possivelmente, de setembro de 1956 a maio de 1957. Desta feita, entretanto, seguiu para o Rio de Janeiro ao deixar a cidade, levando consigo um ritmo renovado para o acompanhamento da música popular, desenvolvido por meio de um processo contínuo e exaustivo de treinamento obsessivo no violão.

A modificação que João Gilberto introduziu no acompanhamento das músicas populares foi a utilização sucessiva de síncopes para produzir o ritmo. A marcação do ritmo passou a não se apoiar no tempo de repouso naturalmente esperado, desvinculando-se da forma de sustentação tradicional, em que o acompanhamento se apoiava habitualmente. Em linhas gerais, pode-se dizer que o acorde passou a ser atacado em um momento de transição entre os tempos basilares da pulsação do compasso musical, evitando-se sua emissão no tempo basilar seguinte, para ser atacado novamente num momento de transição. De acordo com o jornalista e crítico musical Zuza Homem de Melo, esse artifício “provoca uma tensão, uma sensação de que é preciso seguir adiante”. Ao se realçar o momento de transição, “cria-se o impulso rítmico, a leveza, o balanço, o molho, o swing. Quanto mais tensão, mais swing e mais leveza”.

João Gilberto conviveu com inúmeras pessoas em Diamantina, mas que não participavam, necessariamente, do mesmo grupo social na cidade. Duas situações mais específicas proporcionavam sua aproximação com essas pessoas: quando podia trocar experiências musicais sem ser incomodado e quando lhe transmitiam a confiança de poder expressar-se com seu modo inteiramente filosófico. Assim, há relatos que destacam João Gilberto visitando pessoas que possuíam piano em casa, como também, em situações raras, exaltando a poesia vanguardista do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Em linhas gerais, as pessoas que conviveram com João Gilberto se recordam de um homem extremamente calado e reservado, mas que, quando se expressava, era de uma inteligência incomum, filosófico e de fino trato. Aqueles que conviveram de forma um pouco mais íntima com ele relatam que era um homem a frente de seu tempo, por isso incompreendido de maneira geral, situação que lhe rendeu a qualificação de “meio doido” por alguns. A maioria dos músicos da cidade com quem ele dividiu momentos musicais, principalmente alguns seresteiros, não conseguiu assimilar de imediato a batida que ele estava desenvolvendo, afirmando que sentiam a sensação de que João Gilberto fazia um “acompanhamento desafinado e desencontrado”. Houve, entretanto, um número reduzido de pessoas com uma sensibilidade musical mais apurada que viam naquela experiência um fenômeno extraordinário.

Embora cada pessoa que testemunhou o processo de elaboração do novo ritmo o tenha assimilado conforme suas próprias convicções, três situações podem ser asseveradas como verdade absoluta. Primeiramente, há que desmistificar a questão do banheiro. Não era aquele espaço o principal local de treinamento de João Gilberto, onde o músico passava a maior parte do tempo tocando violão, mas sim o seu pequeno quarto, localizado na parte do fundo do pavimento inferior do sobrado onde morava. Quando possível, o banheiro era utilizado como se fosse uma caixa acústica, cumprindo a função de um laboratório, no interior do qual, o som do violão e de sua voz refletiam nos azulejos e reverberavam, possibilitando ao músico escutar a si próprio. A única pessoa a quem João Gilberto permitiu dividir consigo esse momento íntimo foi seu amigo Búbi que, ao descrever os ensaios no interior do banheiro, cita que o violonista beijava uma pequena imagem de Santa Terezinha, antes de começar a tocar.

Depois, considerando-se que várias pessoas, dispersas por diferentes cidades, e sem nunca terem-se encontrado após se mudarem de Diamantina, tenham feito o mesmo relato sobre a convicção com que João Gilberto afirmava que seria sucesso nacional, ao desenvolver a nova batida do violão, pode-se inferir que o músico sabia perfeitamente o que estava fazendo e aonde queria chegar. Por fim, deve ser ressaltado que a primeira cantora, possuidora de voz de rara beleza, acompanhada por João Gilberto ao violão, com o ritmo inédito da bossa nova já formatado, foi a diamantinense Terezinha Mariúcha Cruz.

Ao chegar com esse novo ritmo ao Rio de Janeiro, João Gilberto conseguiu selar, de forma contundente, os elementos constitutivos da bossa nova, que explodiu logo depois no Brasil, levada a efeito pela insatisfação de diversos músicos e compositores com a produção musical construída de forma convencional, atraídos, naquele momento, pela modernidade que se apresentava a um país que, definitivamente, havia feito a opção pelo afastamento de sua condição de nação subdesenvolvida.

* Pesquisador, poeta, graduado em Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina, autor de Caminhos do Desenvolvimento, La Mezza Notte e A Terra, o Pão, a Justiça Social.


[1] OLIVEIRA, Juscelino Kubitschek de. Juscelino Kubitschek I (depoimento 1974). Rio de Janeiro: CPDOC. 1979. p. 5.

[2] MORAES, Marcus Vinícius da Cruz de Mello. In. MELLO, Zuza Homem de. Eis aqui os Bossa-Nova. São Paulo: WMF Martins Fontes: 2008. p. 228.

[3] BOJUNGA, Cláudio. JK – O Artista do Impossível. Rio de Janeiro: Objetiva. 2010. Ed. de bolso. p. 624.

[4] LANGE, Francisco Curt. Os Compositores na Capitania Geral das Minas Gerais. Marília: Separata da revista Estudos Históricos, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Marília. 1965. nº. 03 e 04. pp. 85-86.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Concerto da Orquestra Sinfônica Jovem de Diamantina

Texto: Juscelino Roque

Da Bossa Nova ao Clube da Esquina

Tenho acompanhado várias iniciativas culturais deste Patrimônio Mundial que é Diamantina. Com certeza, algumas se destacam, principalmente, pela boa qualidade e sintonia com as nossas origens musicais.

A apresentação da Orquestra Sinfônica Jovem de Diamantina, que aconteceu no dia 10 de Setembro na Praça do Bonfim, é um testemunho vivo da nossa capacidade de fazer as coisas de forma profundamente profissional.

Parabéns a todos que de forma direta ou indireta foram protagonistas deste belo concerto.

Reginaldo Cruz: Arranjo, Orquestra e Regência

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Participações:

Deuler Andrade: Compositor/ Violinista

Wander Conceição: Músico/ Pesquisador/ Escritor

Cantoras: Camila Gomes, Evelyn Silva, Fátima Fernandes

Convidado Especial :Jonas Vitor: Saxofonista ( duas vezes prêmio BDMG)

terça-feira, 22 de julho de 2014

Onde a bossa-nova surgiu

Autor: Manoel Hyguno – publicado no Jornal Hoje em Dia 22/07/2014 – Clique aqui

Vinícius de Moraes tinha raízes mineiras, dos Machados que produziram Lucas, o grande médico, Lúcia – a escritora, o acadêmico Ângelo Machado e tantos outros personagens queridos; Noel Rosa, já se viu, também teve ancestrais na montanha e, no ápice da carreira, veio aqui buscar cura de tuberculose; mais recentemente, descobri que João Gilberto veio a Minas para haurir na fonte inspiração para a bossa-nova.

E escolheu para sua experiência nada menos que Diamantina, terra de Juscelino, o carismático governador e presidente, empregado dos Correios antes de fazer o curso de Medicina e colar grau em 1927, ao lado de Pedro Nava, entre outros. E JK foi apelidado de “o presidente Bossa-nova”.

Ruy Castro, ao elaborar o seu “Chega de Saudade”, recorda a passagem de João Gilberto pela terra de Juscelino, de Francisco Nunes, o maestro, e em que viveu Helena Morley, a menina-prodígio – autora de um livro inesquecível, avó do acadêmico Eduardo Almeida Reis.

Acontece que Castro, o brasileiro, de nome Ruy, não se aprofundou no estudo sobre JK em Diamantina, como informou Juscelino Roque, conhecedor das pesquisas de alto nível realizadas por Wander Conceição sobre a histórica cidade e suas personalidades. Por sinal, o autor ainda luta para conseguir recursos para continuação de seu minucioso e revelador estudo.

Parece estranho, bossa-nova–Diamantina. Mas é fato. Aliás, o trabalho de Wander sobre a influência de Minas e de Diamantina na gestação da bossa-nova já extrapolou as fronteiras de Minas e do Brasil. O suicida jornalista alemão Marc Tischer lançou um livro em sua pátria com o título “Ho-ba-lá-lá, à procura de João Gilberto”, citando uma entrevista com Wander. Este trabalha seu projeto, há mais de década, sozinho, sem ajuda financeira de governo ou empresarial, mas não desiste. Ele sabe da valia de seu esforço.

Mas não somente Ruy Castro entrou no tema. Zuza Homem de Mello produziu um livro de 120 páginas, lançado em 2001, para festejar os 70 anos do compositor, explicando tecnicamente a formação do ritmo e dos acordes da bossa-nova. Diz Zuza, na página 33, que: “Foi especificamente em Diamantina, em 1956, que João Gilberto atingiu a magia que procurava”.

Como o compositor apareceu na terra dos diamantes? A irmã Maria da Conceição Dadainha era casada com um engenheiro civil, Péricles Rocha de Sá, que chefiava obras de uma rodovia na região, a BR-367. Antes, vivera em Diamantina um irmão de João Gilberto, o Jovino, que estudou no colégio Diamantinense, responsável por ensino de primeira qualidade. Mas ainda tocava violão e jogava futebol, pescava, além de integrar o Tiro de Guerra.

Os diamantinenses não conseguiam ver João Gilberto. Ele se enfurnara na casa do cunhado e da irmã, por oito meses. Trancava-se no quarto com o violão e não saía sequer na calçada. Fechava-se horas e mais horas no banheiro, também com o violão. À noite, percorria de meias, para não fazer ruído, os corredores da casa. Depois cantava e tocava baixinho, ao lado do berço de Marta Maria, a sobrinha, no quarto de criança. Para os diamantinenses, era um sujeito esquisito, que passava o dia de pijama tocando violão.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Santa Casa de Caridade de Diamantina realiza trabalho de preservação de sua história

A Administração da Santa Casa de Caridade de Diamantina, por intermédio do seu assessor histórico-cultural, Wander Conceição, vem realizando um trabalho para a construção de um documentário com parte da história desta Instituição, tendo como objetivo salvaguardar as informações dos apontamentos registrados na documentação existente.

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Wander Conceição assessor histórico-cultural

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sociedade União Operária Beneficente de Diamantina comemora aniversário

Leia abaixo o discurso de Wander Conceição durante a solenidade de comemoração do 122º aniversário da Sociedade União Operária Beneficente de Diamantina.

IMG_4534Iniciada no ano de 1993, pelo então superintendente da Fundação Cultural e Artística de Diamantina, o músico Ivo Pereira da Silva, a caminhada para levar Diamantina a ser reconhecida pela UNESCO como “Patrimônio Cultural da Humanidade” atingiria seu objetivo no dia 01 de dezembro de 1999, depois de intenso trabalho realizado por um grupo enorme de pessoas que se foram engajando na campanha. Durante esse processo, dentre várias situações identificadas pelo Monsenhor Walter Almeida, e referendadas pela Comissão por Diamantina Patrimônio da Humanidade, três elementos foram evidenciados como altamente relevantes para justificar a candidatura de Diamantina, em razão de seus aspectos de elevada singularidade. Foram eles essenciais para a composição do conjunto de justificativas reunidas no Ensaio Histórico-Estratégico, escrito pelo professor Antônio Carlos Fernandes, de saudosa memória, então chefe do Departamento de História, da extinta Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina. O referido ensaio foi repassado ao IPHAN, como indicativo para formatação do dossiê a ser construído e enviado à UNESCO, sobre cujo teor, seria avaliada a candidatura da cidade ao título mundial. Nesse ensaio estratégico constavam, dentre outros elementos constitutivos de sua proposição, a arquitetura barroca de Diamantina, sua musicalidade e sua historiografia, como principais elementos singulares, que deveriam ser preservados e salvaguardados, para conhecimento das gerações futuras.

Quando, no ano passado, a União Operária Beneficente de Diamantina se propôs a fazer uma restauração de tamanho porte, nesta sede que hoje, totalmente restaurada, está sendo oficialmente reintegrada ao conjunto arquitetônico barroco estabelecido na região central da cidade, esta instituição centenária caminhou, com extrema competência, em sintonia com o que há de mais sensato e coerente com a condição de Patrimônio do Mundo, que Diamantina, orgulhosamente, ostenta.

A primeira ação efetiva para salvaguardar as edificações dos séculos XVIII e XIX de Diamantina aconteceu por intermédio de Juscelino Kubitschek de Oliveira. Sendo o braço direito do governador Benedito Valadares, o jovem deputado federal agiu junto ao governo do estado para conseguir reunir sobras orçamentárias, distribuídas por diversas diretorias, e transferi-las para sua cidade natal, gradativamente, com o propósito de retirar Diamantina da letargia, da desesperança e da falta de perspectiva em que a cidade se encontrava no início da década de 1930.

O problema mais urgente que sufocava Diamantina era seu isolamento dos municípios circunvizinhos, visto que, além da estrada de ferro que fazia sua ligação com Belo Horizonte, os caminhos de conexão com suas áreas distritais e as demais regiões do estado de Minas Gerais eram apenas trilhas abertas nas montanhas, compostas de vários trechos de difícil mobilidade, em terreno pedregoso e irregular. Por meio das verbas que Juscelino Kubitschek conseguiu junto ao governo do estado foi possível abrirem-se estradas da sede para todos os seus distritos, para as saídas regionais nas direções norte e sul, e construírem-se as pontes essenciais. O passo seguinte foi a revitalização do sistema de energia elétrica que abastecia Diamantina, até então, fornecida pela usina de Santa Maria, estabelecida no distrito de Extração, em situação já obsoleta e insuficiente para abastecer a cidade, cujos bairros periféricos se expandiam. Juscelino Kubitschek intermediou o processo de modernização da Sociedade Industrial Hulha Branca que, estabelecida na barragem do rio Paraúna no então distrito de Gouveia, passou a fornecer a energia para Diamantina, com capacidade extremamente superior à da usina anterior. Essa ação impulsionou o desenvolvimento do comércio, ao possibilitar a fixação de pequenas empresas na cidade, além de ter criado condições para a chegada da luz elétrica em bairros periféricos, mais carentes.

Contudo, se por um lado a cidade passou a respirar de forma menos sufocada, por outro, as novas edificações características do século XX começaram a invadir o espaço secularmente preenchido por sobrados e casarões antigos. Ao perceber que o conjunto arquitetônico barroco edificado em Diamantina poderia desaparecer, frente às novas construções modernas que avançavam de forma avassaladora sobre a cidade, Juscelino Kubitschek utilizou de seu prestígio junto às instituições federais e recorreu a Rodrigo Mello Franco de Andrade, então diretor geral do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN. Conseguiu que o conjunto urbano de Diamantina fosse tombado pelo referido órgão, em 16 de maio de 1938. “Estava salva a cidade. Já ninguém poderia construir em seu perímetro, sem projeto aprovado naquele Serviço Federal”.

Salvaguardada, naquele momento, a arquitetura construída no centro histórico, esse conjunto arquitetônico singular pôde ser apresentado à UNESCO seis décadas depois, como justificativa forte para que Diamantina se tornasse Patrimônio Cultural do mundo. Em um terreno montanhoso, árido, estéril, pedregoso, irregular, no mais longínquo do ocidente, reproduziu-se uma arquitetura em consonância com aquilo que de mais moderno se edificava na Europa. Esse fenômeno teria que ser preservado a todo custo, para conhecimento das novas gerações.

O esforço gigantesco que foi despendido para esta restauração da sede da União Operária está, pois, em perfeita sintonia com o raciocínio exposto. As luzes que emanam desta Casa hoje estão oferecendo brilho ainda maior a um conjunto arquitetônico extraordinário; estão contribuindo de forma notável para a preservação de um acervo preponderantemente barroco, riquíssimo, de rara beleza, enaltecido, mundo afora, por pesquisadores, cientistas, arquitetos, escritores e poetas. A título de ilustração, observe-se a resposta do arquiteto Lúcio Costa, autor do projeto do Plano Piloto de Brasília, ao ser questionado, por sua filha, onde havia adquirido a síntese entre tradição e modernidade reproduzida em seus projetos arquitetônicos, traço tão característico de sua produção artística. Respondeu o arquiteto: “A primeira coisa, a coisa básica foi o encontro com Diamantina, em 1924. Era aquela beleza sem esforço”. Portanto, uma contribuição de grande vulto para a recomposição desta “beleza” natural, mundialmente festejada, está acontecendo hoje, ao ser devolvido, oficialmente, à comunidade diamantinense, o prédio da sede da União Operária Beneficente de Diamantina, todo restaurado.

Quanto ao quesito musicalidade, que também foi um dos pilares da referida justificativa apresentada à UNESCO, identificado como o elemento cultural de origem européia mais expressivo, que se fixou e se perpetuou em Minas Gerais, a União Operária, ao longo de sua existência, ofereceu grande contribuição igualmente.

Conforme publicações do musicólogo alemão, Francisco Curt Lange, os compositores mineiros do século XVIII ultrapassaram, em quantidade e qualidade, as composições dos músicos portugueses, e muitas de suas obras compostas em Minas Gerais são comparadas às composições de grandes mestres europeus de seu tempo. No entorno da liturgia da Igreja Católica, disseminada no território mineiro por intermédio do número elevado de associações religiosas multiplicadas na capitania, desenvolveu-se um ambiente musical poderoso e altamente qualificado, pois havia ouro e diamantes o bastante para se pagarem os músicos, que se mantiveram na condição de estritamente profissionais, sem a necessidade de se apegarem a outro ofício, para garantirem sua sobrevivência.

Sobre esse movimento musical mineiro do século XVIII, que também teria que ser preservado para conhecimento das gerações vindouras, Francisco Curt Lange afirmou que foi um fenômeno artístico sem precedentes na formação de todo o continente americano, e registrou a seguinte observação:

“Minas Gerais, como nova região brasileira, descoberta e levada durante cem anos a um fantástico desenvolvimento, logrou a maior concentração humana durante o período colonial, possuiu o maior número de objetos de arte jamais visto anteriormente, e teve uma grei, jamais igualada nas Américas, de professores da arte da música.

O profissionalismo musical em Minas Gerais é um capítulo tão honroso da História da Música no Brasil, que se pode insistir em sua inegável superioridade sobre a música que se exercia na Corte e na Bahia, tanto em intensidade, como em curiosidade por obras contemporâneas européias”.

Em conseqüência direta do colapso porque passou a mineração em Minas Gerais ao final do século XVIII, o lugar social do músico diamantinense deixou de ser as corporações voltadas para o culto religioso e passou a ser o interior das Bandas de Música no século XIX, as quais mantiveram a tradição musical mineira, possibilitando sua perpetuação até os dias atuais. Foi nesse contexto que a União Operária abrigou ninguém menos que Antônio Ephygênio de Souza, que se tornou conhecido em Diamantina como maestro Paraguay, em função de sua participação na guerra verificada entre o Brasil e aquele país, onde o músico serviu no 23º Corpo de Voluntários. A qualidade reproduzida em suas composições musicais marcou seu nome junto ao de João Baptista de Macedo, o grande maestro Piruruca, como os dois maiores expoentes do ambiente musical diamantinense no século XIX.

Radicado em Diamantina ao final da Guerra do Paraguai, Antônio Ephygênio de Souza tornou-se membro participativo de várias entidades de classe na cidade, dentre as quais, foi vice-presidente da União Operária. Como grande contribuição para esta instituição, compôs o seu hino, orgulhosamente tocado em suas sessões oficiais. Nos primeiros tempos, pela Banda Corinho.

Essa tradição musical diamantinense foi perpetuada no seio da União Operária, desde a sua fundação. Nos eventos de maior expressividade ocorridos nesta Casa, primava-se sempre pela manutenção do canto executado pelas senhoras e senhoritas, posicionadas nas sacadas e janelas deste sobrado. Com o desaparecimento das bandas civis, ocorrido nos primeiros decênios do século XX, assumiu a perpetuidade dessa cultura dentro da União Operária, a notável Banda de Música do 3º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais, coincidentemente fundada em 1891, portanto, com a mesma idade desta nobre instituição operária. De tempos a esta parte, as sessões oficiais têm recebido, por vezes, a honrosa contribuição da Banda Mirim Prefeito Antônio de Carvalho Cruz. Acrescente-se a essas informações que a União Operária chegou a montar sua banda de música própria, durante a década de 1940, cujo projeto não foi adiante, em decorrência das grandes necessidades financeiras para se manter em atividade uma corporação desse gênero.

Não bastassem as singularidades até aqui apresentadas – que, observe-se bem, têm que ser preservadas para conhecimento das futuras gerações –, a União Operária construiu uma história invejável, digna dos mais efusivos louvores, pelos capítulos singulares de superação, que foram escritos a partir deste magno salão. Afirmou Dom José Newton de Almeida Baptista, 3º arcebispo de Diamantina e edificador da Arquidiocese de Brasília, que “a história se faz através da acumulação penosa de experiências valorizadas, e não como um salto no escuro, mediante decisão desvinculada do passado”. Portanto, a fundação da União Operária não aconteceu isolada dos problemas gravíssimos que assolavam a população de Diamantina ao final do século XIX. Ela nasceu num momento da busca pela organização da classe operária no Brasil, no início da República Velha, momento em que uma massa de seres humanos acabara de ser jogada às ruas, sem perspectivas de trabalho e de renda. Eram escravos libertos do cativeiro, em sua maioria esmagadora, analfabetos e sem o mínimo de amparo social, mas que agora teriam que sobreviver em meio aos leões, empunhando apenas armas rudimentares. A busca pela organização da classe operária era, entretanto, somente uma tentativa, ainda muito acanhada, de se tentar combater uma das páginas de crueldade mais desprezíveis da história da humanidade.

A motivação para a fundação da Sociedade União Operária Beneficente de Diamantina foi detalhadamente relatada, para os operários e representantes das mais variadas classes da sociedade diamantinense, desta mesma tribuna em que hoje recebi a honra e o privilégio de utilizar, por Juscelino Kubitschek de Oliveira, na noite de 1º de junho de 1944, quando o então prefeito de Belo Horizonte foi o orador oficial, durante as comemorações do 53º aniversário desta Casa. Relatou Juscelino Kubitschek em seu pronunciamento a seguinte passagem:

“Nesta cidade, numa noite longínqua de 1891, há mais de meio século passado, descia as escadas de uma residência em festa, sob o peso da humilhação, um operário que a sociedade repudiara, julgando-o de acordo com os cânones da época, indigno de ali penetrar.

À porta, encontra quatro conterrâneos, aos quais expõe a afronta aviltante que recebera. Os quatro se reúnem a mais cinco, que tangidos pelas virtudes profundas e fundamentais do caráter de nossa gente, fundam esta Sociedade, que doravante resguardaria de qualquer agressão, leais e devotados diamantinenses, sob cujos músculos, repousavam a energia construtiva de nossa cidade”.

Relatava Juscelino Kubitschek um fato passado, havia 53 anos. Contudo, muito provavelmente, ainda não soubesse ele que, há menos de três meses antes daquele seu relato, exatamente no dia 19 de março de 1944, havia sido fundado em Diamantina o Clube União Democrata, a partir de outra afronta social, também aviltante. A condição primordial para se fazer parte do quadro de sócios do Clube Acayaca era a comprovação de uma situação financeira exuberante. Não obstante um senhor negro possuir essa condição primordial, em decorrência de sua desenvoltura para atuar como diamantário na cidade; não obstante seu caráter íntegro, sua família digna, filhos com excelente grau de estudo, sua proposta para fazer parte do quadro social do Clube Acayaca foi negada, porque aquele senhor carregava o peso de ter nascido no seio de uma família negra. Essa foi a motivação extremada que levou um grupo de diamantinenses indignados a fundar o Clube União Democrata, impulsionados pela mesma sensação de desprezo social porque haviam passado aqueles homens que fundaram a União Operária.

Para se compreender porque tantas ações como essas se realizaram em Diamantina com tamanha freqüência, desde sua fundação, perpetuando-se continuadamente pelos séculos seguintes, há que se recorrer à historiografia da formação política e social do Arraial do Tijuco e seu desdobramento em direção aos dias presentes. Inclusive, só, e somente só, por intermédio desse conhecimento, se poderá compreender o ambiente social, político e econômico que envolvia Diamantina em 1891, motivador de arbitrariedades indecorosas, similares àquela relatada por Juscelino Kubitschek, que motivou a fundação da União Operária.

Já na implantação do poder administrativo público no Arraial do Tijuco, toda sua estrutura foi estrategicamente forjada para dar suporte e alimentar os interesses particulares de uma minoria privilegiada. A historiadora Júnia Ferreira Furtado, ao estudar vasta documentação para interpretar, com metodologia científica, o famoso Regimento Diamantino, mais conhecido pelo codinome de “Livro da Capa Verde”, esclareceu que os indivíduos pertencentes à classe dominadora se aproveitavam das rivalidades entre os intendentes e os governadores, posicionando-se a favor da situação mais confortável para consolidação de seus interesses pessoais, usufruindo do poder daquelas autoridades, com o objetivo exclusivo de defender e alimentar suas fortunas e proteger seus apadrinhados. Em conseqüência disso, a população do Tijuco foi dividida de maneira muito nítida. De um lado, uma classe dominante diminuta, encastelada em duas instâncias rivais de poder, cada qual preocupada apenas em satisfazer suas conveniências, num sistema político, econômico e social perverso, em que as regras eram ditadas pelo contrabando dos diamantes. De outro lado, uma massa enorme de seres humanos, representada por negros, escravos e forros; homens livres desocupados; os despossuídos e os desclassificados sociais, originados nas próprias condições de marginalização, impostas pelo processo de desenvolvimento da mineração.

Ocorrendo a independência do Brasil em 1822, adveio o tempo do Império, durante o qual, as normas de convívio social estabelecidas no período anterior não se alteraram em Diamantina. O aparelho público continuou sendo utilizado como veículo essencial para a manutenção de fortunas particulares, distante de sua função precípua de ser o principal instrumento para formatação de um plano de desenvolvimento coletivo. A pequena classe privilegiada se rivalizou agora sob os rótulos de conservadores e liberais, disputando entre si as benesses do poder público, para que, por intermédio dele, pudessem sustentar seus interesses particulares, abrigando seus familiares em cargos estratégicos e protegendo seus apadrinhados. Na outra ponta da existência humana, uma multidão de desfavorecidos, abandonada ao esquecimento.

O fim do Império se deu em 1889, quando ocorreu a proclamação da República no Brasil, portanto, dois anos apenas, antes da fundação da União Operária em Diamantina. As publicações do historiador Marcos Lobato Martins registram que no início do período republicano, os interesses de dois grupos diferenciados de “homens de negócio” é que estavam em jogo em Diamantina. Do primeiro grupo faziam parte os homens que detinham a chamada “riqueza antiga”. Eram homens que se dedicavam a atividades tradicionais para acumular fortunas, visto serem detentores de terras de cultura e de pastagem, lotes de ouro e de diamantes, casas de comércio e estoques de mercadorias, escravos e, principalmente, dinheiro vivo ou na forma de dívidas por empréstimos realizados a terceiros. Do segundo grupo faziam parte os homens que detinham a chamada “riqueza nova”. Eram homens de caráter empreendedor, que se dedicavam à aplicação e ao rendimento do capital, investindo em empresas industriais e de serviços. Dentre os homens que constituíam esse segundo grupo, aqueles que se dedicaram, por exemplo, à navegação do rio das Velhas e à construção de fábricas de tecido, como a fábrica edificada no povoado de Biribiri.

Naquele momento, o avanço industrial nos países considerados de primeiro mundo exibia um cenário de exploração extrema da mão de obra operária, com prática contumaz de salários baixíssimos, expondo o trabalhador a viver nas mais precárias condições. Embora o discurso proferido por Juscelino Kubitschek em 1944 nesta tribuna de honra, tenha sido, em grande parte, um canto de evocação à nobreza do povo diamantinense, ele não se furtou a discorrer sobre a realidade que consumia o operariado, de forma global, no citado período. Eis o que Juscelino proferiu neste recinto:

“A humanidade regida por velhas fórmulas, tendo, através de um longo ciclo de vida fácil, esquecido os ensinamentos cristãos, se dividira em castas, da qual a mais humilde e desprezada era exatamente a do operariado. Nobres e burgueses se disputavam a posse do mundo, sob a proteção invencível do dinheiro. O direito era uma lâmina brilhante, porém de um gume apenas. E este se voltava, na maioria das vezes, contra o operário, contra o trabalhador silencioso, que nas horas de amargura de uma existência sempre falhada, ajudava a construir, sem que o reconhecessem, a grandeza e a prosperidade do Universo”.

Nesse contexto, em que os operários, mundo afora, procuravam cada vez mais se organizar em busca de melhores condições de vida, criando associações várias de auxílio mútuo, é que nasceu em Diamantina a União Operária Beneficente. A escravidão já não era explícita no Brasil, pois, oficialmente, havia sido abolida em 1888. Entrementes, a despeito dos artigos da lei da abolição, a prática escravocrata permanecia, de forma dissimulada, como uma nódoa pegajosa que não se desintegra, visto que ainda não existia legislação, para regulamentar as relações entre patrões e empregados.

A União Operária Beneficente de Diamantina se organizou, instituindo-se também nos moldes de uma sociedade de auxílio mútuo. Dentre as inúmeras ações que praticou, passou a oferecer pensão para viúvas e filhos dos operários e oferecer condições dignas de enterramentos às famílias de seus associados. Quanto à instrução aos trabalhadores, adiantou-se ao poder estatal, que inaugurou a instrução básica pública em Diamantina, somente ao final do ano de 1907, por meio da criação do Grupo Escolar Matta Machado. Já em 1894, a União Operária mantinha em suas dependências um Liceu de Artes e Ofícios, com oficinas que ajudaram na formação profissional de seleiros, sapateiros e alfaiates, dentre outros trabalhos especializados. Logo nos primeiros anos do século XX vieram a fundação das escolas noturnas, para alfabetização e instrução dos operários e de seus familiares, e a fundação da biblioteca própria da instituição, cujos livros levaram instrução a várias pessoas que se tornariam personalidades de destaque, posteriormente.

Testemunha maior desse benefício oferecido pela União Operária, Juscelino Kubitschek terminou o curso intermediário no Seminário em 1917, com apenas 15 anos. Sem perspectivas para avançar nos estudos em Diamantina, percorreu toda a cidade à procura de emprego, “de armazém em armazém, de loja em loja, de venda em venda”. Sem conseguir colocação, resolveu que iria estudar por conta própria, das seis da manhã às dez da noite, todos os dias, religiosamente. Foi nesse período de sua vida que Juscelino Kubitschek se dirigiu à biblioteca da União Operária, detentora de cerca de 300 volumes, e leu todos os exemplares de sua coleção. Iniciava-se naquele momento, no seio desta notável Casa, a modelagem de um presidente da República do Brasil. Num ato de reconhecimento, de profunda gratidão à União Operária, por esse amparo recebido em momento de grandes incertezas de sua adolescência, Juscelino Kubitschek fez um depoimento eloqüente aos operários, naquele pronunciamento de 1944:

“Nunca se perderão na minha memória reconhecida os silenciosos e tranqüilos serões que nesta casa eu fazia, recebendo dos velhos livros da modesta biblioteca que aqui mantínheis, as primeiras sementes da reduzida ilustração que vim a conquistar.

Algumas recordações juvenis se infiltram e jamais se apagam no painel de nossa imaginação. Assistindo, há pouco tempo, a exibição do grande filme Ben Hur, subitamente, mergulhei-me num grande sonho, no halo do qual eu me via entrando por uma noite fria e chuvosa na sala sobre a qual estamos e onde em pequenas estantes se alinhavam as lombadas acolhedoras de vossos livros. E foi ali, precisamente, que pela primeira vez pude ler, sob as mais vivas emoções, o delicioso romance que fixaria em minha memória, para sempre, as horas de encantamento que através de vossa modelar organização me foram dadas desfrutar. Não tenho expressões, pois, para vos agradecer”.

Tudo isso se passou no tempo da República Velha. Na disputa para o comando político de Diamantina durante aquele período, venceram os homens de negócio representantes da “riqueza antiga”, os quais seguiram manipulando o poder público com o intuito primaz de alimentar seus interesses particulares e favorecer seus apadrinhados. Foram capitaneados pelos desmandos do senador Olímpio Mourão por mais de 30 anos, marcados pela prática de um coronelismo cruel, exercido com mão de ferro, sobre uma população marginal paupérrima. Somente a revolução armada de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder federal, conseguiu uma ruptura momentânea nessa relação político-social perversa, estabelecida em Diamantina.

Getúlio Vargas encontrou um cenário de exploração humana, num país sem legislação trabalhista. As jornadas de trabalho eram demasiadamente longas, não havia férias, nem aposentadoria, nem descanso semanal remunerado, não havia proteção para o trabalho de mulheres e crianças, e em muitas situações, os trabalhadores tinham que se submeter ao convívio com ambientes totalmente insalubres. Getúlio criou um conjunto de normas para auxiliar a classe operária, iniciando uma mudança significativa que iria impor, mesmo que de maneira ainda acanhada, um pouco de justiça social nas relações trabalhistas. Posteriormente, essas normas seriam compiladas em um único texto de lei, editada com o nome de Consolidação das Leis do Trabalho. Mas esses avanços não foram construídos sem relações tensas, num ambiente social marcado pela calmaria. Correntes ideológicas das mais diversas foram seguidas e espalharam-se pelo país os movimentos grevistas e o anarquismo.

Sem embargo da importância histórica desses movimentos, há que ser destacado que, desde os seus primórdios, a União Operária jamais fez a opção de trilhar caminhos salpicados por atitudes extremistas, mas escolheu as sendas da doutrina social cristã para nortear sua jornada, empunhando uma bandeira de luta marcada pelos preceitos: “Deus, Honra e Trabalho”.

A doutrina social cristã foi definida por Dom José Newton como o único caminho capaz de “encerrar a solução de todos os problemas, amainar todas as tempestades, reconfortar os corações e apontar a verdadeira finalidade da vida presente”. Exatamente 15 dias antes da fundação da União Operária, Sua Santidade o Papa Leão XIII publicava a encíclica Rerum Novarum, carregada de um forte apelo à humanidade para encetar todos os esforços na busca do equilíbrio social no planeta. Esse episódio foi relembrado por Juscelino Kubitschek no referido pronunciamento de 1944, em cujo texto ele destacou a importância da atuação de instituições com o perfil da União Operária, em seu constante esforço para conseguir oferecer uma vida mais digna às populações desfavorecidas. Foram estas as palavras do prefeito de Belo Horizonte:

“Como tem sempre descido do alto das torres de Deus, pela voz sonora dos carrilhões católicos, a palavra de conforto e a imposição para que todos se julgassem iguais através de milênios, pelos púlpitos e pelas naves, pelas estradas e pelos templos, nunca se calou a voz dos herdeiros de Cristo. E se em alguns documentos humanos do valor da Rerum Novarum de Leão XIII, o problema era revelado nas claras luzes de uma solução, silenciosamente pelas cidades, aldeias, arraiais e povoados, onde quer que se ostentasse uma pequena ermida, havia sempre uma voz clamando pela agremiação dos homens, em sentimentos e instituições que lhes garantissem um equilíbrio social e ao mesmo tempo lhes lembrasse que afinal de contas, todos somos iguais e que a diferença social é apenas uma burla de que se servem os poderosos para, oprimindo os humildes, garantirem para si uma situação de domínio”.

Juscelino Kubitschek iniciou sua vida política em 1934, ano em que se tentou a redemocratização do Brasil, por intermédio da promulgação de uma constituição federativa. Eleito deputado federal, Juscelino Kubitschek voltou os seus olhos para sua terra natal e se esforçou para retirar Diamantina da letargia centenária em que se encontrava naquele momento, asfixiada pelo legado político deixado pelo senador Olímpio Mourão. Nada melhor do que a descrição do próprio Juscelino Kubitschek como comprovação fidedigna do estado deplorável em que se encontrava a cidade:

“Desde a morte do meu avô paterno que eu não havia voltado a Diamantina. O que sabia da cidade era-me contado por amigos que iam a Belo Horizonte. E essas informações eram alarmantes e inquietadoras. Ruas esburacadas. Falta de escolas e ginásios. Estradas que não passavam de trilhas, abertas pelos cascos das mulas. Casas em ruínas. Enfim, pobreza e desolação por toda parte. Lembro-me de uma expressão do meu primo João Kubitschek, após uma visita de alguns dias ao velho burgo, que muito me preocupou: Diamantina está apodrecendo Juscelino. A advertência fez com que redobrasse meus esforços, no sentido de tentar salvar a cidade”.

Por mais que suas intervenções tenham surtido efeito, conseguindo avanços significativos que retiraram Diamantina daquele estado de debilidade agonizante, a história registraria que Juscelino Kubitschek não conseguiria evitar que se perpetuasse para o século seguinte a tradição de uma prática política abominável, definida por ele mesmo naquela época como um “processo clássico de nomeações estratégicas, reforçadas pela pressão policial”. Alguma mudança identificada nessa conduta aconteceu apenas na forma, porém, jamais no seu conteúdo.

Ao se impor como líder político em Diamantina, a partir da eleição municipal de 1936, Juscelino Kubitschek sepultou o antigo Partido Republicano Mineiro na cidade. Contudo, o tempo registraria que o sepultamento seria apenas de uma sigla partidária, não do perfil dos políticos, nem de suas idéias e de seus ideais secularmente sedimentados em Diamantina, nem da falta de projetos voltados para a eqüidade social e o bem comum. A dualidade política da classe dominadora passaria a ser agora moldada pelos interesses próprios dos “correligionários de JK”, versus interesses próprios dos “adversários de JK”, configuração que permanece até os dias atuais.

Durante todo esse tempo, não obstante tenha seguido os avanços sociais ocorridos no Brasil, por intermédio de ações voltadas para a melhoria do ensino, da legalidade geral, e da saúde pública, como, por exemplo, as obras que melhoraram as condições do saneamento básico, o sistema político em Diamantina não se distinguiu muito do modelo tradicionalmente exercido desde os tempos coloniais, sem planejamento algum para atacar de frente as profundas mazelas inerentes a um quadro social degradante.

O período da chamada República Nova começou em 1934. Passados 20 anos de sua implantação e da primeira eleição de Juscelino Kubitschek para deputado federal, assumiu a Arquidiocese de Diamantina, Dom José Newton de Almeida Baptista, no dia 06 de junho de 1954. O quadro social degradante continuava o mesmo no município. Naquele momento, o mundo ainda vivia a crise do pós-guerra, passava por um tempo de angústias, de incertezas e apreensões, sacudido por extremismos violentos. Dom José Newton escolheu como intenção programática para sua administração a mensagem evangélica Por um Mundo Melhor, que norteou as considerações de sua Carta Pastoral de Saudação à Igreja de Diamantina, datada de 18 de abril de 1954. Mirou-se no chamamento do Papa Pio XII, que clamava “por um mundo melhor”, dirigido, em 02 de outubro de 1952, a cento e cinqüenta mil homens da Ação Católica de toda a Itália, incorporados na imensa praça de São Pedro. Dentre as ações que realizou no sentido de cumprir as intenções programáticas de sua Carta Pastoral, Dom José Newton empreendeu duas Semanas Ruralistas na Arquidiocese de Diamantina, levando aos homens do campo de toda sua jurisdição, um pouco da prática benéfica da Ação Social Católica. Na carta de apresentação da I Semana Ruralista, realizada no ano de 1955, Dom José Newton foi firme em destacar sua preocupação com os bolsões de pobreza extrema espalhados pelas áreas periféricas do município. Observe-se parte do apelo veemente registrado por Sua Excelência Reverendíssima naquele documento:

“Deve-se reconhecer, na verdade, que este empreendimento surge de encontro a problemas básicos de nossa gente, que devido a fatores históricos administrativos, jaz em situação social das mais graves e preocupantes. [...] É a pobreza e a doença em meio da abundância e dos encantos do jardim inigualável que Deus nos deu!

Diante deste contraste, a Semana Ruralista de Diamantina quer ser um grito de esperança e de otimismo e um brado de alarma e de apelo às Autoridades responsáveis. Quer, sobretudo, erguer a bandeira da Ação Social Católica desfraldada pelos soberanos pontífices, principalmente pelo grande Pio XII, que não cessa de clamar Por um Mundo Melhor espiritual e materialmente”.

Passados 83 anos da implantação da República Nova no Brasil e 58 anos daquele apelo veemente feito por Dom José Newton em sua carta de apresentação da I Semana Ruralista ao povo da Arquidiocese de Diamantina, guardadas as devidas proporções, quase nada mudou. Na terra que abasteceu a Europa com quilos e mais quilos de diamantes, proporcionando à Inglaterra a condição econômica necessária para deflagrar a Revolução Industrial, episódio que mudou os destinos da humanidade no século XVIII, em pleno século XXI, como conseqüência direta de um sistema político tradicionalmente perverso, ainda grassam em Diamantina a doença, a fome, o preconceito, a perseguição, a injustiça, o abandono do ser humano, em proporções incomensuráveis.

A Igreja Católica continua firme em sua proposição de indicar a Ação Social Católica como a única senda a ser percorrida, pela sua possibilidade legítima de proporcionar a justiça social de forma digna. É exatamente nessa direção que foi publicada a Mensagem de Dom João Bosco Óliver de Faria, atual arcebispo da Arquidiocese de Diamantina, distribuída ao povo em 1º de janeiro deste ano, por intermédio da qual, Sua Excelência Reverendíssima solicita aos governantes um especial carinho com os mais pobres e menos favorecidos. Nessa mensagem Dom João Bosco enfatiza:

“Embora tenha vivido apenas poucos anos nesta Arquidiocese, tive a tristeza de ver muitas manchas de pobreza extrema, de carência total dos meios necessários para uma vida digna de filhos de Deus.

Nossos irmãos mais pobres são filhos de Deus e não podem ser responsabilizados pela triste situação a que foram lançados pelas circunstâncias da vida. Sua pobreza extrema é um grito que brada do Céu, é uma acusação pesada diante de Deus para quem fechar seus olhos fazendo a política da avestruz, que enfia sua cabeça na areia do deserto, para não ver o perigo que se aproxima.

Tentar resolver esse drama de injustiça não é populismo. Populismo é prometer o impossível em campanhas políticas e depois fazer ouvido de mercador aos justos reclamos do povo”.

Como se vê, as aberrações que manchavam o cotidiano do Arraial do Tijuco no século XVIII ainda estão presentes e vivas em Diamantina, em pleno século XXI. Várias delas, com insensatez e violência cortantes, visto que, sendo agora estrategicamente veladas, diante de sua aparente inexistência, deixam cicatrizes invisíveis aos olhos, mas profundas na alma.

Que da altura dos seus 122 anos de existência, a União Operária Beneficente de Diamantina continue sendo uma sociedade de suporte para o operariado, em sua busca incessante de justiça social, por meio de projetos que propugnem o bem coletivo. Que das experiências valorizadas que se emanaram do suor espalhado a partir do recinto deste salão, se apresentem as soluções equânimes que norteiem as atitudes do operariado, pelos anos vindouros deste século que se inicia. E que, nesta Casa, o alento para a perseverança, nas horas de maiores dificuldades, continue sendo a opção pela prática da doutrina social cristã, numa caminhada pacífica, em cuja vanguarda, tremule, altaneiro, um estandarte assinalado pelos preceitos: “Deus, Honra e Trabalho”.

Diamantina – MG, 09 de junho de 2013.

Wander Conceição.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Escritor diamantinense Wander Conceição sofreu sequestro relâmpago em BH

Publicado G1 Minas (clique aqui)

O diamantinense Wander Conceição sofreu um sequestro-relâmpago no bairro Buritis, na Região Oeste de Belo Horizonte, na noite desta segunda-feira (22). Ele teria sido ameaçado pelos criminosos por mais de quatro horas. Ele é morador de Diamantina e estava na capital visitando a família. Segundo a polícia, antes de voltar, o homem deu carona para o sobrinho até a casa de um amigo. O morador disse que depois de poucos minutos, ele e o amigo escutaram o barulho de um carro na rua.

De acordo com vizinhos, dois homens que estavam escondidos atrás de uma árvore renderam a vítima. O homem foi obrigado a passar para o banco do passageiro e ficou sob a mira de um revólver.

Logo depois, os cartões e os dados da conta do sequestrado teriam sido passados para um terceiro suspeito. O homem foi a uma agência checar o saldo da vítima.

Os documentos e o veículo dele não foram devolvidos. Um morador conta que sequestros estão cada vez mais frequentes no bairro Buritis.

Clique aqui para ver o vídeo com a entrevista de Wander.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Museu do Diamante promove palestra musical sobre a Bossa Nova

Folheto Bossa Nova - capa

A abertura ficará a cargo da professora da UFVJM, Ana Flávia Figueiredo, que discorrerá sobre o tema "A função social dos Museus".

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Leia a entrevista com Wander Conceição

Clique aqui para ler a entrevista completa.

Dando continudade ao projeto de debater e trocar ideias sobre Diamantina por meio de entrevistas, o Passadiço Virtual tem a honra de publicar a contribuição do músico e escritor Wander Conceição.

Natural de Diamantina, Wander sempre esteve envolvido no universo cultural da cidade. Conviveu com grandes músicos e seresteiros, participou de importantes movimentos culturais e pesquisou sobre a Vesperata.  Seu livro “ La Mezza Notte”, escrito em parceria com Antônio Carlos Fernandes (Toninho), é uma referência muito importante para enteder a musicalidade diamantinense.

Na entrevista Wander fala sobre cultura, política, patrimônio, música, Vesperata, Beco do Motta e também sobre a sua  pesquisa em desenvolvimento que aborda a passagem de João Gilberto por Diamantina.

Enfim, uma aula imperdível de um grande mestre em diamantinidade.

Clique aqui para ler a entrevista completa.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Wander Conceição é o novo entrevistado do Passadiço Virtual

Clique aqui para ler a entrevista completa.

Dando continudade ao projeto de debater e trocar ideias sobre Diamantina por meio de entrevistas, o Passadiço Virtual tem a honra de publicar a contribuição do músico e escritor Wander Conceição. 

Natural de Diamantina, Wander sempre esteve envolvido no universo cultural da cidade. Conviveu com grandes músicos e seresteiros, participou de importantes movimentos culturais e pesquisou sobre a Vesperata.  Seu livro “ La Mezza Notte”, escrito em parceria com Antônio Carlos Fernandes (Toninho), é uma referência muito importante para enteder a musicalidade diamantinense.

Na entrevista Wander fala sobre cultura, política, patrimônio, música, Vesperata, Beco do Motta e também sobre a sua  pesquisa em desenvolvimento que aborda a passagem de João Gilberto por Diamantina.

Enfim, uma aula imperdível de um grande mestre em diamantinidade.

Clique aqui para ler a entrevista completa.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Manifesto do Beco

Autor: Wander da Conceição – publicado no Blog GIED (clique aqui)

A jovem Maria, menina adolescente, certo dia se perdeu. Desonrou a família, ganhou a sarjeta. Sem piedade! Sem compaixão! Subiu no lombo de um burro, desapareceu...

Junto ao mourejar dos tropeiros em busca das mercadorias importadas, desembarcou no braço final da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Recolheu-se em uma pensão, que era do Beco do Motta, que era do Grande Empório do Norte, que era de João Francisco da Motta, que era da rua da Quitanda, que era de Diamantina, que era grande centro cultural, que era pólo administrativo-financeiro do norte e nordeste de Minas Gerais.

Maria foi recebida com flores e música no Cabaré. Escutou as serenatas. Aprendeu a dançar Tango, Bolero, Valsa. Ganhou carteirinha da Saúde Pública, ganhou exame médico periódico e ganhou as esquinas cruzadas dos becos do Alecrim e do Motta como limite da vida. Achou-se...

Trocou a sarjeta pela segurança ardilosa de um covil: um lugar misterioso, velado pelos fantasmas da maldição. O sofrimento calou a voz de Maria, mas o rumor do soluço abafado de seu pranto ainda retumba no silêncio das pedras do Beco, durante as madrugadas de lua cheia, em forma de manifesto:

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