domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Casa dos Loucos

Na rua da “caridade”, no anexo da “santa” casa de misericórdia, o antigo prédio da Casa dos loucos (portadores de sofrimento mental) em Diamantina, pede socorro. O prédio desperta a curiosidade dos estudiosos da psiquiatria, pois na longínqua cidade do interior de Minas Gerais já se aplicava, em pleno século XIX, muitas teorias sobre o adoecimento mental produzidas em diferentes partes do mundo. Na exposição Olhar Diamantina, organizada pela UFMG, Clébio Maduro participa tendo o casarão da Casa dos loucos (para portadores de sofrimento mental), hoje em processo acelerado de depredação física, como referência inicial. 

No livro Hospício da Diamantina: a loucura na cidade moderna,  a autora Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani analisa a loucura e as práticas psiquiátricas em Diamantina, no Brasil e no mundo nos séculos XIX e XX. A linha tênue entre  ser normal e ser louco aparece nítida nas páginas do livro de Magnani e revela que o abandono do prédio pode significar algo mais do que o simples abandono de uma edificação histórica. A reconfiguração das estratégias de tratamento dos portadores de sofrimento mental, expressa na luta antimanicomial, deve significar o abandono material da história da saúde mental entre nós? A pergunta fica aberta para que as autoridades responsáveis e os estudiosos do assunto nos ajudem a preservar essa história e esse prédio.

Clique aqui para mais informações sobre o livro.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Da janela lateral do quarto de dormir

O disco Cube da Esquina (1972) revolucionou a música brasileira, sendo considerado como um dos mais importantes da MPB. Além de ser o primeiro disco duplo da música brasileira, a obra trouxe uma série de inovações harmônicas e rítmicas até então nunca ouvidas, misturando rock, jazz, erudito e música brasileira de raiz. Uma mistura sonora que, até hoje, é o que melhor representa o espírito de Minas Gerais.

O disco é cheio de clássicos da nossa música: "Tudo Que Você Podia Ser", "Cais", "O Trem Azul", "Cravo e Canela", "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo", "San Vicente", "Nada Será Como Antes" e outras. Uma das mais belas de todas é "Paisagem da Janela". Esta música foi composta por Lô e Fernando Brant em um quarto de hotel em Diamantina, quando os integrantes do Clube foram chamados para fazer uma reportagem para a revista "O Cruzeiro", durante o processo de composição do álbum. A vista para a Serra do Espinhaço influenciou Brant a escrever uma das letras mais bonitas do álbum.

PAISAGEM DA JANELA
(Lô Borges e Frnando Brant)

Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
E eu apenas era

Cavaleiro marginal lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvores
Sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal banhado em ribeirão
Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava da janela lateral
Do quarto de dormir

Você não quer acreditar
Mas isso tão normal
Você não quer acreditar
Mas isso tão normal
Um cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Você não quer acreditar


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Dom João VI e as treliças


No livro 1808, o autor Laurentino Gomes comenta que o Rei de Portugal Dom João VI proibiu a utilização de treliças e musharabis (muxarabiê) nas janelas das casas do Rio de Janeiro Colonial. De influência árabe eesse tipo de construção permite que o morador observe o movimento das pessoas na rua sem ser visto pelos pedestres. A razão alegada é que o muxarabiê facilitaria as conspirações e a ação de assassinos. Outros afirmam que a razão é apenas de caráter comercial, pois obrigaria a compra de vidros fabricados pelos ingleses. Independente da razão, trata-se de uma medida extrememente sem sentido. Posteriormente, já no século XX, o arquiteto Lúcio Costa incorporou a sua utilização em várias construções brasileiras.

Ainda bem que essa proibição não foi capaz de impedir a construção e preservação de alguns musharabis em Diamantina. O mais famoso deles está no prédio da Biblioteca Pública, na Baiúca, centro da cidade. Porém, podemos encontar as treliças em várias construções da cidade, como por exemplo na Casa de Chica da Silva.
Fotos: Felipe Marcelo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Afinal, quantos são os tubos?


Perguntei ao grande oráculo, Google, sobre o órgão de tubos da Igreja Nossa Senhora do Carmo e tive poucas e contraditória infromações. Infelizmente, nunca tive a oportunidade de ouvir o seu som. Mas há uma esperança, porque ao passar em frente à Igreja posso ver uma placa informando que o mesmo se encontra em fase de restauração.


Um dos pontos interessantes nessa pesquisa é a imprecisão em relação ao número de tubos do órgão. Cada site informa um número, que varia de 500 a mais de 700 tubos. Afinal, quantos são os tubos? O número mais encontrado é o de 549.
Recentemente estive na cidade de Mariana e percebi que o órgão de tubos da Igreja da Sé é uma das principais atrações turísticas da cidade, com vários concertos e visitas. No Google há muitas informações sobre o instrumento: informações turísticas, fotos, vídeos e muitos mais. Um exemplo a ser seguido por Diamantina na valorização de seu patrimônia artístico e cultural.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

La Mezza Notte:uma reflexiva leitura sobre a Vesperata

Recomendo  a leitura do livro  dos professores Antônio Carlos Fernandes e Wander Conceição, La Mezza Notte: o lugar social do músico diamantinense e as origens da Vesperata. O rico texto nos revela  a tradição musical da sociedade do Arraial do Tijuco, destaca a importância do músico Lobo de Mesquita e resgata a origem da Vesperata na década de 30 do século passado pelas mãos do Maestro Piruruca. Outro aspecto muito interessante analisado pelos autores é a importância da Banda do 3º Batalhão da Polícia Militar para a construção e preservação da história musical de Diamantina.
Por outro lado, os autores fazem um importante alerta para os perigos da perda da identidade cultural da cidade por meio do processo de transformação das edificações, tradições e  práticas culturais em produtos turísticos por meio de ações  uniformizadas, mistificadas e reducionistas.
Enfim, uma leitura obrigatória para quem aprecia a Vesperata e gostaria de aprofundar um pouco mais sobre  a sua história e representatividade na sociedade diamantinense.


Foto: Treliça

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Itambé: natureza, cenário e testemunha da história



Na língua Tupi ele significa pedra afiada ou aguda. Em minhas andanças pela região de Diamantina é ele que me orienta. O botânico francês August Saint Hilaire também o descreveu como uma importante referência geográfica em suas pesquisas pelo Brasil na primeira metade do século 19. Está presente em músicas, poemas, fotos e relatos. O Pico do Itambé (2002m de altitude) é o cenário perfeito para essas paisagens e acontecimentos históricos. Além disso, por possuir um rico acervo de fauna e flora, a região foi transformada em Parque Estadual pelo Instituo Estadual de Florestas, em 1998.
De acordo com o IEF Parque Estadual do Pico do Itambé possui riquezas naturais como cachoeiras, cursos d'água e vegetação únicas. Abrange em seus domínios, várias nascentes e cabeceiras de rios das bacias do Jequitinhonha e Doce. No Parque situa-se o Pico do Itambé, com seus 2.002 metros, um dos marcos referenciais do Estado.

Campos rupestres de altitude e cerrado compõem a cobertura vegetal nativa do Parque. Nos fundos de vales ocorrem manchas de solos de aluvião, de maior fertilidade, sobre os quais se desenvolve exuberante mata pluvial altimontana, onde podem ser encontradas espécies como o pau-d'óleo, a sucupira, o ipê, o cedro, o jatobá, o ingá e a candeia, entre outras. Nos campos de altitude ocorrem espécies raras e endêmicas de orquídeas.

Uma fauna bastante rica relaciona-se com a diversidade florística e com os recursos hídricos. Dentre os animais, constantes da lista oficial de animais ameaçados de extinção, destacam-se a onça-parda e o lobo-guará.

Fotos: Gladistone e Treliça 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Acaba Mundo: aventura e marketing

Há muito tempo o nome de um lugar tem chamado a minha atenção em Diamantina: Acaba Mundo. Mais precisamente: Ponte do Acaba Mundo. A curiosidade aumentou ainda mais  quando a ponte foi parar no cartaz do Festival de Inverno da UFMG. O nome nos dá a impressão de que o lugar é muito longe, um fim de mundo. Quando eu observava o estado do ônibus que faz essa linha a sensação do juízo final aumentava. 

Semana passada recebi a visita do meu amigo Lucas, de Belo Horizonte. Quando comentei com ele sobre o Acaba Mundo ele também ficou muito intrigado. Resolvemos, então, encarar o "apocalipse" e partimos em seu Uno 1.0 para o fim do mundo. No início da estrada tudo bem: Gruta do Salitre, Curralinho, Bonsucesso. De repente começamos a descer  cada vez mais em direção a um vale. Aproximadamente 6 km de descida forte em meio a uma paisagem linda para, finalmente, chegarmos à Ponte do Acaba Mundo. 

Lá está ela, firme e  forte sobre o Rio Jequitinhonha. Para ser mais exato, sobre o encontro de duas vertentes do Jequitinhonha: o Preto e o Branco. Ao avistá-la é natural a curiosidade para saber o motivo de uma construção daquele porte naquele lugar.  Provavelmente está ligada à necessidade  de transporte de minério na primeira metade do século passado.

Desfeito o mistério inicial, queríamos saber o que existe depois do fim do mundo. Seguimos um pouco mais da estrada, mas o acesso começou a ficar ruim. Nos restou apenas um mergulho nas corredeiras do Jequitinhonha Preto.

Enfim, concluímos que o Acaba Mundo não é tão longe como estava em nosso imaginário e que há vida depois do "juízo final". Também chegamos à conclusão de que o autor da escolha do nome do local tinha conhecimentos de marketing, pois nos estimulou e criou a demanda por essa aventura.

Polêmica: Cidades históricas vetam axé, funk, rock e música sertaneja

Fonte: Agência Estado

Se você gosta de axé, funk, rock ou música sertaneja, tire as cidades históricas mineiras dos seus planos neste carnaval. Três das mais visitadas cidades do circuito histórico do Estado - Ouro Preto, Mariana e São João Del Rey - vetaram esses ritmos nas folias. Em programações patrocinadas pelas prefeituras e nos espaços públicos, só sambas e marchinhas de carnaval poderão ser executados nas festas. A medida integra o projeto Carnaval das Cidades Históricas para resgatar o "carnaval de antigamente".

"Queremos trazer para essas cidades pessoas que respeitem o patrimônio e a segurança", afirmou o secretário de Cultura e Turismo de São João Del Rey, Ralph Justino. Para 2010, a meta é atrair para o circuito mais duas cidades históricas de Minas - Diamantina e Sabará.

Todas essas cidades atraem milhares de turistas no carnaval. A maior parte deles é formada por jovens. O turismo de estudantes tem causado problemas para as cidades históricas. Além de gastar pouco, alguns grupos causam danos ao acervo colonial - no caso de Ouro Preto, reconhecido como patrimônio da humanidade pela Unesco.

Para Ralph Justino, o "carnaval de antigamente" das cidades históricas de Minas tem apelo para se tornar uma grande atração, despertando o interesse de milhares de turistas de outro perfil. O projeto foi anunciado hoje, em Belo Horizonte. O secretário disse acreditar que o carnaval histórico poderá, futuramente, ter tanto prestígio quanto o carnaval do axé
, em Salvador, o carnaval das escolas de samba, no Rio, e o carnaval do frevo, no Recife.

Nas três cidades que já aderiram ao projeto Carnaval das Cidades Históricas, axé, rock, hip-hop e outros ritmos
poderão ser executados somente em lugares fechados e privados que exijam a compra de ingresso ou em lugares mais isolados destinados especificamente para esse fim.

Em São João Del Rey, a prefeitura baixou decreto para regulamentar a execução das músicas durante a folia. Em Mariana, cidade que tenta conquistar o reconhecimento como patrimônio da humanidade pela Unesco, um dos atrativos do carnaval à moda antiga será o desfile de catitães - bonecos gigantes artesanais que fazem parte do folclore da região. Em Ouro Preto, a programação oficial será realizada no centro histórico da cidade Outros ritmos, no entanto, serão executados em festa no estacionamento da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

O tema é polêmico e envolve uma série de aspectos que merecem atenção: a conservação do patrimônio, aspectos culturais e a liberdade. Qual a sua opinião? Você acha que Diamantina deveria seguir esse caminho? Registre abaixo o seu comentário.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Cachoeiras da região de Diamantina


A região de Diamantina é muito rica em cachoeiras que nos proporcionam belas paisagens. Mas uma discussão legal é saber qual delas é a mais bonita. Cada um tem sua preferência e indicação. Particularmente, acho as cachoeiras do Telésforo, em Conselheiro Mata, e a do Crioulo, em São Gonçalo do Rio Preto, como as mais interessantes. 

Na verdade, além da beleza natural dos locais, acredito que a companhia da viagem também cria um astral legal do passeio, tornando-o mais agradável. Algumas são mais indicadas para serem visitadas com crianças, outras necessitam de um carro mais apropriado, outras são acessíveis somente após uma grande a caminhada. 

O  mais importante é que são várias as opções e para todos os gostos. Vou colocar no blog uma enquete para saber a opinião dos leitores. Dê o seu voto, faça seus comentários ou indique outra que não foi comentada por aqui.


Fotos disponíveis no flickr : by Edy Luigi, Vitório Miranda e Marcelo Salgado. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Arcos do Mercado e o Palácio da Alvorada



Experimente lançar no Google as palavras arco, mercado, Diamantina e Niemeyer. Muitas serão as citações de uma possível inspiração dos arcos do Mercado de Tropeiros de Diamantina para que o arquiteto OscarNiemeyer projetasse a fachada do Palácio da Alvorada.  Observando as fotos acima percebe-se uma semelhança muito grande entre os arcos das duas construções, porém invertidos.  Como não encontrei nenhuma afirmação do próprio Niemeyer sobre essa influência, permanece, então, a dúvida. Seria apenas coincidência ou mais uma influência de Diamantina na história cultutal do Brasil? 

Lobo de Mesquita e as origens da musicalidade em Diamantina

José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (Vila do Príncipe, atual Serro, Sec. XVIII --- Rio de Janeiro,1805), foi um organista, regente e compositor brasileiro. É patrono da cadeira número 4 da Academia Brasileira de Música.Estudou música com o padre Manuel da Costa Dantas, mestre-de-capela da matriz de Nossa Senhora da Conceição do Serro. Foi para Arraial do Tijuco (1776), hoje Diamantina, para ser responsável pela instalação na Matriz de Santo Antônio de um órgão fabricado pelo Padre Manuel de Almeida e Silva, onde desenvolveu sua carreira como organista e compositor (Regina caeli laetare, 1779 até que entrou para a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo (1789). 

Alferes do Terço de Infantaria dos Pardos, foi o encarregado de um oratório para a Semana Santa (1792). Regeu a música para o tríduo do período (1798-1799), na matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto, e as Quarenta horas, do período seguinte (1800-1801). A partir daí até sua morte, tocou nas missas da igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro, cidade onde morreu. Um de seus ofícios de defuntos foi apresentado na vila de Caeté, MG, em 25 de janeiro de1827, em memória da Imperatriz Leopoldina, o que mostra que o compositor era ainda reconhecido e lembrado mais de vinte anos depois do seu falecimento 

Existem apenas dois manuscritos autógrafos do compositor, a Antífona de Nossa Senhora (1787) e aDominica in Palmis (1782), mas há muitas cópias do restante de sua obra, como ladainhas missas, ofícios e novenas. Todas as outras obras conhecidas de sua vasta produção aparecem em cópias de fins do século XVIII e, em sua maioria, do século XIX.

Clique aqui e veja no youtube  a gravação de Christus Factus Est de Lobo de Mesquita. Essa música foi cantada pelos Meninos Cantores da Catedral de Novo Hamburgo 

Fonte: Wikipedia

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Chichico Alkimin: mestre da fotografia em Diamantinaa




Francisco Augusto Alkmim nasceu em Bocaiúva-MG, no ano de 1886, filho de proprietários rurais da região. Ainda jovem, inicia-se com os mestres padre Manoel Gonzales e Passig no nascente ofício de fotografar, começando a produzir como fotógrafo profissional a partir de 1902, na cidade de Diamantina, seus distritos e municípios vizinhos.    

Em 46 anos de profissão, Chichico Alkmim acumulou um gigantesco e precioso acervo de seu tempo, compondo um notável capítulo da história do povo e da cidade de Diamantina, onde acabou fixando residência em 1917. Este acervo se compõe de cerca de 5 mil negativos de vidro registrados no período compreendido entre 1909 e 1955, a maioria em excelente estado de conservação, apresentando grande diversidade temática e qualidade técnica.    

Utilizando placas de vidro compradas de firmas de material fotográfico já instaladas no Brasil e enviadas a Diamantina via estrada de ferro, Alkmim trabalhava principalmente em estúdio, cuidando detalhadamente do cenário e da composição das pessoas fotografadas: crianças, adultos, defuntos, prostitutas, policiais militares, padres, freiras e membros de famílias tradicionais de Diamantina. Registrou também a arquitetura urbana e a vida social da época, ruas e edificações, procissões e festas religiosas, solenidades cívicas e formas de lazer típicas da cidade, reunindo um variado acervo iconográfico sobre a sociedade e a evolução urbana em Diamantina.


Cachoeiras, Kussú e Cassetão


Se você estiver visitando a região de Diamantina e for convidado a comer  algo no Kussú ou dar uma passadinha no Cassetão, não se assuste. Apesar dos nomes estranhos e passíveis de várias interpretações a experiência pode ser interessante. 

Quando você estiver com muita fome, depois de uma longa caminhada  pelas belas cachoeiras do Parque Estadual do São Gonçalo do Rio Preto, provavelmente você não resistirá ao Cassetão. Um estabelecimento comercial que fica na praça principal da cidade de São Gonçalo do Rio Preto.

Outra local com nome estranho é o Bar do Kussú, localizado no distrito de Conselheiro Mata. O Bar do Kussú é referência obrigatória quem deseja visitar as cachoeiras das Fadas ou do Telésforo. 

Para Milton Nascimento o "Brasil é o Beco do Mota"


Segundo o múscio Ivan Vilela: no início dos anos 60, em Belo Horizonte (MG), jovens músicos começam a se encontrar na cena musical da capital mineira. Eles produziam um som que fundia as inovações trazidas pela Bossa Nova a elementos do jazz, dorock’n’roll – principalmente The Beatles –, de música folclórica dos negros mineiros e alguns recursos de música erudita e música hispânica. Nos anos 70, esses artistas tornaram-se referência de qualidade na MPB pelo alto nível de performance e disseminaram suas inovações e influência a diversos cantos do país e do mundo.


O que muitas pessoas não sabem é a forte ligação dos membros do grupo com a cidade de Diamantina.  Ao visitar o site do Museu do Clube da Esquina podemos encontrar uma série de depoimentos de músicos ligados ao movimento relatando suas viagens e histórias pelas ruas, bares e cachoeiras da cidade. Na foto acima podemos ver um desses momentos:  o presidente JK juntamente com Milton Nascimento, Fernando Brant e Lô Borges.

Diamantina está presente em algumas canções produzidas pelo movimento. As capistranas estão na música "Paixão e Fé" de Frnando Brant e Tavinho Moura.  Mas, sem dúvida, a mais famosa de todas é a canção "Beco do Mota" composta por Milton Nascimento e Fernando Brant.


Beco do Mota

Clareira na noite, na noite
Procissão deserta, deserta
Nas portas da arquidiocese desse meu país
Procissão deserta, deserta
Homens e mulheres na noite
Homens e mulheres na noite desse meu país
Nessa praça não me esqueço
E onde era o novo fez-se o velho
Colonial vazio
Nessas tardes não me esqueço
E onde era o vivo fez-se o morto
Aviso pedra fria
Acabaram com o beco
Mas ninguém lá vai morar
Cheio de lembranças vem o povo
Do fundo escuro do beco
Nessa clara praça se dissolver
Pedra, padre, ponte, muro
E um som cortando a noite escura
Colonial vazia
Pelas sombras da cidade
Hino de estranha romaria
Lamento água viva
Acabaram com o beco...
Procissão deserta, deserta
Homens e mulheres na noite
Homens e mulheres na noite desse meu país
Na porta do beco estamos
Procissão deserta, deserta
Nas portas da arquidiocese desse meu país
Diamantina é o Beco do Mota
Minas é o Beco do Mota
Brasil é o Beco do Mota


A contribuição de Diamantina para a Bossa Nova

De certa forma, pode-se considerar que Diamantina tem sua contribuição na criação da Bossa Nova. A revista Bravo conta um pouco dessa história:

Entre 1952 e 1955, João Gilberto estreou como compositor, com Você Esteve com Meu Bem? (uma co-parceria com Russo do Pandeiro, gravada por Marisa), e como intérprete, com o compacto Quando Ela Sai. Quem ouve este último nem reconhece João, cantando num estilo bem diferente do atual. Foi uma fase, como as de Picasso, definiria depois. E a fase terminou logo que João percebeu que não estava evoluindo. Não tinha renda fixa, morava de favor e passava as noites de bar em bar, tocando violão emprestado. Percebeu que, se quisesse mesmo uma mudança, era ele quem teria de mudar geograficamente. Caetano Veloso, afinal, estava certo: a Bossa Nova nasceu com João em Juazeiro... quando ele voltou para sua cidade natal aos 24 anos.

Antes de voltar a Juazeiro, porém, João Gilberto teve dois outros endereços. Passou sete meses em um hotel em Porto Alegre, RS, sustentado pelo amigo e cantor Luís Telles. Depois, foram mais oito meses em Diamantina, MG, na casa da irmã, Dadainha. Foi uma espécie de ano sabático que não durou um ano e não teve nada de sabático: João trabalhou como um artesão de sua música, obcecado em descobrir aquela batida do violão e aquele jeito de cantar que embalavam seus sonhos. Estava desenraizado do mundo, mas criava as raízes da personalidade profissional que o consagraria sua compulsão metódica, seu experimentalismo repetitivo, sua busca perfeccionista.

Diz-se que os moradores de Diamantina mal viam a cara de João. Ele não saía de casa. Raramente tirava o pijama, um hábito que manteve por vários anos, quando se tornou quase um eremita em seu apart-hotel no Leblon, no Rio, na década de 80. Passava o dia todo no banheiro de Dadainha, cujos ladrilhos proporcionavam uma acústica perfeita. Quando saía de lá era para serenar a sobrinha, Marta Maria, recém-nascida.

Fonte: Revista Bravo (Abril Editora)