segunda-feira, 8 de julho de 2013

Lançamento do Sempre-Viva boletim poético

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No Vale difere

Fonte: Júlio Assis, publicado no jornal O Tempo

Dicionários informam que mangá é nome dado a histórias em quadrinhos de origem japonesa. No Vale do Jequitinhonha, é outra coisa. Nessa região mineira, mangá quer dizer zombar. Um exemplo de prosa: “Pra mim contá o pessoal que eu apanhei 99 vez é demais. Eles pode me mangá”.

O jeito de falar sobre o esforço na lida cotidiana também é diferente no Vale, observe: “O Dico contava que um impregado dele na roça repetia sem pará: ‘A gente luita e labuta e ninguém oxileia’”. Depois da luita, de luta, oxileia vem de oxiliá, derivado de auxiliar.

São muitas, acho que mais de mil, as expressões reunidas no livro “Dicionário do Dialeto Rural no Vale do Jequitinhonha – Minas Gerais”. A essa rica e curiosa leitura me dediquei esses dias, ao buscar o volume na pilha das publicações que me atraem e que aguardam a vez diante de frequentes prioridades profissionais.

Neste caso, nem foi tanto tempo assim de espera, visto que há cerca de dois meses esse livro foi lançado pela editora UFMG, está fresquinho nas livrarias, com o nome no alto de Carolina Antunes. Professora aposentada da Faculdade de Letras da UFMG, ela, filha da região do Jequitinhonha, se dedicou desde 1980 a esse trabalho, contando com colaboradores em várias etapas, como informa o volume.

Professora Carolina documenta, por exemplo, que se não tiver fim a “intiputeca” tudo pode “i pra dissimbrea”. A primeira palavra quer dizer travessura. Já a segunda expressão é uma variante de ir para a desembreagem ou perder o controle da situação.

Rufino não é nome ou sobrenome de gente, mas de alguém que se apavora fácil, como demonstra o livro: “Não sei o que tá aconteceno. Esse minino tá muito rufino. Qualqué barulhin dá susto nele”.

O estudo que resultou na publicação tem o devido rigor científico. Textos de apresentação no livro registram a importante contribuição da obra para a lexicografia portuguesa. O lançamento é, dessa forma, valioso para pesquisadores e para o universo acadêmico em questão, mas é também fonte prazerosa para leigos em lexicografia, como meu caso. É uma leitura que traz descobertas, curiosos pontos de comparações e identificações com nossa linguagem urbana cotidiana, oferece a riqueza de um dos regionalismos na cultura do nosso país.

A maneira objetiva como é apresentado o dicionário ajuda a essa aproximação do leitor comum à obra. Logo no começo, há um esquema intitulado “Chave do Dicionário”, que explica as regras de elaboração dos verbetes, todos trazendo exemplos das expressões orais no dia a dia. Em seguida, basta folhear as páginas para, sem complicações, passear pelo dialeto rural do Jequitinhonha.

Ali, a habilidade para realizar tarefas é “cartigolença” (“cê ta duvidano da minha cartilogência pra fazê a comida?”). “Chanhá” é tratar o outro com carinho (“Aqueles dois andam chanhando muito!).

Carolina Antunes salienta que muitas das expressões, “mesmo não sendo encontradas exclusivamente no Jequitinhonha, caracterizam a variante rural dessa região em um quase confronto com a variante urbana. Por conseguinte, esta obra não se configura como objeto possuído dessa ou por essa região e, sim, como uma produção textual e discursiva decorrente de uma coleta de dados orais lá efetuada e de dados escritos sobre ela”.

A professora sintetiza ainda que a coleta dessas expressões “pôs em foco o desempenho da principal função da linguagem – a de ser instrumento de comunicação e interação social – a que estão diretamente atreladas noções de território, cultura e memória”.

Cuidado, por exemplo, se ouvir a palavra “suvertê”, pois alguém pode estar querendo fugir (“Isperto o moço. Passô a mão ni tudo e suverteu, né?”). E, diferentemente de mangá, “mancá” é descumprir compromissos (“Aí o rei mandô Dum-Dum pra lá, porque se ele mancasse, ele ia sê inforcado, né?”).

Música do Espinhaço apresenta novo trabalho em Diamantina

domingo, 7 de julho de 2013

Mesmo com salários de R$ 22 mil, médicos não aceitam trabalhar no Vale do Jequitinhonha

Fonte: Estado de Minas, publicado no Blog do Banu.

Faltam médicos no Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas. Em meio a embate sobre contratação de estrangeiros, quem mora nos rincões do estado sofre com a falta não só de médicos, mas também de condições para se tratar nos grandes centros.

A população sente na pele e protesta: faltam médicos e qualidade na saúde em todo o país; a presidente Dilma Rousseff anuncia: quer importar 6 mil doutores de Cuba para trabalharem cidades do interior; entidades médicas rebatem: não faltam profissionais, e sim estrutura para atender bem os pacientes; prefeitos apelam: oferecem até R$ 35 mil para um clínico fixar residência na cidade, mas sem carteira assinada.

Enquanto persiste o impasse e representantes da categoria vão para as ruas repudiar a chegada de colegas cubanos e de outras nacionalidades sem revalidação do diploma, quem depende do SUS amarga falta de atendimento, de acesso a exames, de medicamentos ou até de material para um simples curativo.

Se falta entendimento entre governo federal e entidades médicas quanto à melhor forma de solucionar o déficit de profissionais no país, especialmente em cidades do interior, uma constatação parece ser consenso: a dificuldade de conseguir uma consulta médica é diretamente proporcional à distância de cada município dos maiores polos urbanos. E é exatamente nesses lugares considerados pouco atraentes pelos profissionais que está a população mais carente e com maior dificuldade de se deslocar até cidades com melhor estrutura de saúde.

A saúde está em xeque.

Não é à toa que levantamento do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM/MG) mostra que faltam médicos em um quarto dos 853 municípios mineiros. São 209 cidades sem nenhum suporte. Outros 148 (17,3%) têm apenas um médico.

Em outro estudo, o CRM mostra que as perspectivas não são boas. Mais de 60% dos médicos que se formaram em 2012 tinham a intenção de trabalhar apenas em municípios com mais de 100 mil habitantes. Metade deles, no entanto, quer mesmo é exercer a profissão em Belo Horizonte e apenas 7,15% se disseram dispostos a ir para pequenos municípios.

Enquanto não entra mais dinheiro no cofre, é o prefeito quem exporta seus doentes de ambulância para Montalvânia, cidade de 16 mil habitantes, a 29 quilômetros de distância, que tem apenas um profissional, e atendendo fora da sede. Casos mais graves são mandados para Montes Claros, a 390 quilômetros de Juvenília.
A dificuldade para contratar médicos é enfrentada da mesma forma pelos 4,9 mil habitantes de Miravânia, também no Norte de Minas, a 711 quilômetros da Capital. O prefeito Raimundo Nonato Luna (DEM) diz que, para despertar interesse da categoria, elevou para R$ 21 mil o salário de um médico clínico geral no município. Mesmo assim, a proposta não pareceu tão tentadora. Apenas uma das duas unidades do Programa de Saúde da Família (PSF) conta com médico atendendo diariamente. A outra não oferece consultas há dois meses. A secretária municipal de Saúde, Idalina Mota, informou que amenizará a situação com quatro acadêmicos de medicina que iniciarão estágio no município neste mês. “Foi uma salvação para a gente”, comemora Idalina.

ABANDONO

Se do lado dos médicos já há predisposição de evitar pequenos municípios, em algumas localidades, principalmente nas mais distantes das cidades-polo, as dificuldades de fixar profissionais passam pelas péssimas condições de atendimento, falta de equipamentos e medicamentos básicos, impossibilidade de realização de exames e dificuldades de prestação de socorro pela ausência quase completa de infraestrutura. Em outros locais, o problema é insegurança nas unidades e imediações.

A falta de carteira assinada e às vezes até de contrato para médicos também é um entrave. Nessas condições, o pagamento dos proventos fica à mercê da boa vontade dos prefeitos. “É comum o médico receber no primeiro mês. O segundo salário é pago com atraso e depois ele deixa de receber”, sustenta o presidente do CRM/MG, João Batista Gomes Soares.

sábado, 6 de julho de 2013

1ª Conferência Municipal dE Mobilidade Urbana lota auditório da Prefeitura

Mesa de honraNa manhã da última sexta-feira [05/07], às 8h30, cerca de 200 pessoas estiveram presentes na abertura da 1ª Conferência de Mobilidade Urbana – “Trânsito na Minha Cidade”. Formaram a mesa de honra o Prefeito Municipal de Diamantina, Dr. Paulo Célio; o Vice-prefeito, Cássio Antônio Moreira; representando a Câmara Municipal de Diamantina, o vereador Lado da Palha; o Diretor Geral do DETRAN-MG, Oliveira Santiago Maciel; o ex-Secretário Municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano de Ouro Preto, Dr. Gabriel Gobbi e o Gerente de Coordenação de Operações da BHTRANS, Fernando de Oliveira Pessoa.

Após a abertura oficial do evento, o prefeito Dr. Paulo Célio falou sobre a importância de desenvolver políticas públicas que contemplem prioritariamente o cidadão e agradeceu pelo grande número de participantes. “É muito gratificante ver esse auditório cheio e com tanta gente disposta a compartilhar boas experiências em prol do desenvolvimento da nossa cidade”, destacou o prefeito.

Abertura da solenidade 02A primeira palestra, proferida pelo Dr. Oliveira Santiago Maciel, abordou os desafios e perspectivas da municipalização do trânsito, as atribuições dos municípios integrados ao Serviço Nacional de Trânsito, as vantagens da municipalização do trânsito, além de trazer dados importantes sobre o crescimento vertiginoso da frota de veículos em Diamantina. “Diamantina teve um aumento de 134% no número de veículos automotores nos últimos seis anos, são quase 16 mil veículos em circulação na cidade. O espaço público não pode se transformar em um campo de batalhas entre carros e pedestres”, salientou o Diretor do DETRAN.

Experiência de Mobilidade Urbana em Cidade Histórica: o tema ficou a cargo do Dr. Gabriel Gobbi, gestor premiado pelas ações implementadas na cidade de Ouro Preto. Gabriel iniciou sua apresentação destacando algumas particularidades existentes em Diamantina e Ouro Preto e apresentou as intervenções realizadas enquanto gestor da cidade histórica, além de salientar o grande desafio de iniciar a mudança. “No começo as mudanças trazem muitas críticas e atritos, porém quem tem a obrigação de agradar a todos é o palhaço. O gestor público tem o dever de enfrentar essa situação e fazer a coisa certa e garantir o bem para a coletividade”, alfinetou Gobbi.

O último tema da manhã foi apresentado pelo representante da BHTRANS, que compartilhou suas experiências na capital mineira e ponderou sobre os modelos contemporâneos de gestão de trânsito urbano. Em sua explanação, Fernando falou sobre diversas questões, entre elas: estacionamento rotativo, educação no trânsito, gestão para a coletividade, sistemas inteligentes e sobre os pilares da gestão do trânsito.

Após o ciclo de palestras os participantes seguiram para as câmaras setoriais, que foram formadas para que fossem levantadas as principais demandas de trânsito existentes em Diamantina. Das ponderações e ideias surgiu um documento, produzido de forma coletiva e participativa. O Prefeito Dr. Paulo Célio recebeu as reivindicações e garantiu que as ações desenvolvidas pela Prefeitura, voltadas para a melhoria da mobilidade urbana, serão pautadas pelo documento produzido na conferência.

“Vamos continuar debatendo os anseios da sociedade de forma transparente e participativa, como aconteceu hoje. Gostaria de agradecer aos palestrantes, autoridades e público presente. Registro aqui o brilhante trabalho dos servidores que se empenharam para a realização do evento, em especial à Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Patrimônio pelo profissionalismo e comprometimento,” finalizou o prefeito.

Texto e fotos: Ricardo Maciel

Editora UFMG lança livros e DVDs sobre a trajetória de artesãs do Jequitinhonha

Fonte: UFMG

A Editora UFMG acaba de lançar dois livros com DVDs dedicados aos saberes de mestras de ofício do Vale do Jequitinhonha. As produções narram as histórias das artesãs Mestra Zefa e Mestra Izabel e pretendem promover o conhecimento e o artesanato produzido nessa região do país. .

O trabalho é fruto do projeto Saberes Plurais, da Coordenadoria de Políticas de Inclusão Informacional (CPInfo), vinculada à Pró-reitoria de Extensão.https://www.ufmg.br/proex/cpinfo/saberesplurais/

Mestra Zefa
Considerada uma das mais importantes artesãs do Vale do Jequitinhonha, as peças de madeira de Mestra Zefa, especialmente os tamboretes, são muito famosos e procurados. Nascida em Poço Verde, Sergipe, em 1925, veio para Minas Gerais em 1962, passando por Teófilo Otoni e chegando em Araçuaí.

Zefa afirma ter conhecido Lampião e considera Antônio Conselheiro um santo, assim como Padre Cícero e o Doutor Guerra, "médico que depois de morto auxilia mulheres no parto". Reconhecida benzedeira, atende aos lhe batem à porta, confiante nas rezas trazidas do norte. Aos 87 anos, a artesã, com a saúde frágil, já não esculpe mais.

Mestra Isabel
Mestra Dona Izabel começou a brincar com o barro muito cedo ao lado de sua mãe e de sua avó, que fazia vasilhas. A falta de brinquedos e, principalmente, de bonecas, que eram seu sonho de menina, foi a grande motivação para que ela começasse sua vida de artesã e artista do barro. Aos 12 anos, já fazia jarros com bacias, galos e personagens para os presépios. Mais tarde, começou a fazer bonecas e, com uma delas, em 2004, ganhou o Prêmio Unesco de Artesanato para a América Latina. Aos 88 anos, vive em Santana do Araçuaí, Vale do Jequitinhonha, onde ensina sua arte.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Fazer o bem sem olhar a quem

Fonte: DZai/Estade de Minas - Maurício Lara Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press – Dica do Blog do Banu


Foi vendo a mãe fazer caridade e alimentar pessoas carentes que a menina Maria Passabom França, a Nina, determinou que o lema de sua vida seria “fazer o bem sem olhar a quem”. A morte da mãe, quando Nina tinha 13 anos, reforçou nela a vontade de seguir o exemplo. Pouco tempo depois, ela entrou para um convento, iniciando a trajetória de auxiliar o próximo que mantém até hoje.

Como irmã de caridade, Nina foi morar em Belo Horizonte, trabalhando em hospitais. Na hora de fazer os votos perpétuos, a freira decidiu deixar o hábito, sem nunca se afastar do ideal de fazer o bem. Há 51 anos, mudou-se para Diamantina, já casada com o servidor público Walter Cardoso França, com quem teve dois filhos. Aos 77 anos, viúva, Nina, que nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, declara seu amor pela cidade que ela escolheu e que a acolheu: “Sou mineira e diamantinense de coração”.

Ela conta que, ao chegar à cidade, não havia sequer um “posto de injeção”, ou seja, unidades de saúde para atender a população. Nina passou a cumprir o papel de enfermeira que atendia aos doentes em suas residências, aplicando injeção, inclusive de madrugada, tirando pressão, fazendo curativos... Os próprios médicos encaminhavam a ela quem precisava de assistência domiciliar e ela atendia. Como ministra da eucaristia e devota de São José, Nina se encarrega, também, de levar comunhão aos enfermos.

Só que Nina foi além. Passou a cuidar também dos presos da cadeia pública, levando cobertores, creme dental, sabonetes, toalhas... “Eles têm uniforme, mas não têm blusa de frio”, constata. Ela zela pela saúde e dá conselhos aos detentos no sentido da recuperação. “Eu ajudo a levantar do erro, mas não apoio o erro. Quem errar tem que assumir, pode ser até da minha família. Para mim é todo mundo igual”, avisa Nina, que enfrentou resistências da sociedade quando decidiu ajudar também os presidiários. “Há quem não goste do trabalho que eu faço. Mas eu vou ajudar quem, as beatas? Elas não precisam. Temos de dar a mão a quem está caído”, explica.

Era com essa disposição que ela tinha altivez para entrar no Beco do Mota, antiga zona boêmia de Diamantina, bem perto da catedral, para atender prostitutas, por solicitação de médicos da cidade. “Eu aconselhava as moças, todas muito jovens. Teve uma que casou e foi me agradecer depois pelos conselhos.” Ela conta que, por causa de sua forma de agir, já teve enfrentamentos até na Pastoral Carcerária. Lembra uma situação em que uma colega xingava uma presa. Nina discordou da forma. “Tomei a frente. Disse à moça para pegar um espelho e olhar o próprio rosto. E disse a ela: ‘Você é linda, tem que agradecer a Deus pela beleza e inteligência que ele te deu’. A gente tem que ser firme, mas não pode maltratar as pessoas”, ensina.
Nina lamenta pelos dramas que vê nas cadeias e fica especialmente sensibilizada com as consequências do uso de drogas em presos muito jovens. “Tinha um menino novo, dependente, que ficava tremendo sem as drogas. É muito triste”, recorda. Entrar nas cadeias, conviver com os presos, nunca foi motivo de constrangimento para ela. “Eu era jovem, cheia de vida e ninguém nunca me desrespeitou”, diz Nina, com os olhos azuis que chama de “olhos de gato”. Uma vez, recorda, um preso falou alto com ela e os outros reagiram na hora. “Eles me chamam de mãe”, orgulha-se.

“É uma missão”, define Nina, que está envolvida atualmente com o projeto de instalação de uma Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) em Diamantina. Ela sonha em ver os presos com maiores possibilidades de recuperação e de reinserção na sociedade. Em recuperação de uma pneumonia, Nina está mais quieta em casa, mas fica incomodada por isso. “Eu ando o dia inteirinho”, informa, reclamando do mau estado do calçamento nas ruas, responsável por duas quedas recentes que ela sofreu ao levar comunhão para enfermos.

Nina diz que é muito conhecida na cidade justamente porque fica muito na rua, mas não é o que dizem os outros moradores. “Dona Nina é uma celebridade para a gente. É uma pessoa muito útil para a comunidade, ela é muito caridosa”, testemunha a pedagoga Maire Ávila Medina. Cleonice de Almeida Batista, vizinha há 40 anos, faz coro: “Nina é tudo para nós. Acolhe todo mundo na hora da precisão. Tudo é ela. Carrega todos nas costas.”

Nas poucas horas vagas, Nina gosta de ler livros com conteúdo religioso, fiel ao seu perfil de caridade, fé e amor pelas pessoas e pelo lugar em que vive. Ela tira do livro Estas ruas serpeantes, do padre Celso de Carvalho, os versos com que homenageia a cidade. “Diamantina, eu te defino, por tuas ruas andejas, serpeando ao som do sino, entre capelas e igrejas”.

Discurso oficial de Juscelino Kubitschek no 53º aniversário da Sociedade União Operária Beneficente (1944)

Assistência numerosa e seleta tomou literalmente dia 1º os salões da União Operária, naquele dia comemorando o 53º aniversário de fundação.

Constituída a mesa, tomou a presidência de honra o Sr. Prefeito, Dr. Luiz Kubitschek de Figueiredo. Único sobrevivente dos fundadores, o Sr. Antônio Pádua de Oliveira, a convite, fez parte da mesa.

O Sr. Presidente nomeou a comissão que conduz o orador oficial, Dr. Juscelino Kubitschek à tribuna de honra.

Conferidos os diplomas aos novos sócios, entra o orador oficial a proferir o seu discurso.

Na falta do 1º orador, o Sr. José Joviano de Aguiar é encarregado, em nome da União Operária, a fazer os agradecimentos.

Na palavra franca, o Sr. Dr. Juscelino Kubitschek convida aos presentes para uma reunião naquele mesmo local.

O Senhor Prefeito de Belo Horizonte assim falou:

Aqui estou, velha e gloriosa União Operária, para cantar com as vozes profundas do teu passado, a glória semi-secular de teu presente. Neste mesmo recinto, sob as luzes festivas de uma data igual a esta, há oito anos passados, aqui me encontrava falando-vos como hoje, e como hoje sentindo a tépida atmosfera de nossas virtudes humanas e cristãs. Andava em cheio a campanha eleitoral pela conquista das posições municipais do pleito ferido em 1936. Todos os diamantinenses se empenhavam com calor e sinceridade na luta e com o destemor e dignidade tão fundamentais no caráter de nossa gente. Os grupos se separavam, buscando cada um a fórmula que no seu entender melhor satisfizesse as aspirações naturais de nossa Terra. Naquela noite memorável, que precedeu de uma semana apenas o encontro eleitoral mais disputado dos novos tempos de Diamantina, desta mesma tribuna, dirigia eu a minha palavra aos associados desta grande instituição, numa hora em que, para mim, no exercício do sagrado mandato popular, procurava congregar todos os elementos de minha Terra em torno do Governo Benedito Valadares.

Posso dizer, com prazer e orgulho, senhores, que nenhum homem público guardará nas atividades políticas impressão mais nobre e mais bela do caráter de seu povo do que eu, naqueles tempos que já se vão diluindo na sombra do esquecimento. Efetivamente, nos dois grupos em luta dominava apenas um pensamento: erguer sobre a força imponderável e dominadora de nossas tradições o monumento perene do progresso de Diamantina. Acesa a contenda, jamais se rebaixaram os lutadores a golpes mesquinhos ou menos nobres. E passada a refrega, num gesto de rara elegância e de lúcida superioridade, os adversários se deram a mão, jurando sobre o amor que todos devotam à nossa Terra, que acima dela e contra ele não prevaleceriam incompatibilidades nem ódios inúteis e improdutivos.

E talvez seja esta a única cidade do Brasil em que sobre qualquer outro sentimento predomine o amor à terra-mãe e aos seus altos e definidores rumos cívicos. E prova disto, senhores, é que dentre os acontecimentos espirituais de minha vida, nenhum sobreleva a circunstância tão grata ao meu coração de verificar que posso, fraternalmente, apertar a mão de cada um dos meus conterrâneos, tenham estado eles num ou noutro dos campos em que se dividiu a cidade. Não pode e nem poderá haver mais alta compreensão de deveres cívicos do que esta, e coisas assim só se passariam sob a doçura abençoada do grande céu que se arqueia sobre as lindas paisagens de nossa Terra.

Os diamantinenses são todos irmãos quando se joga no tabuleiro do interesse coletivo os anseios e as aspirações que palpitam, esparsas pelo ambiente da cidade.

E só assim se explica a cordialidade reinante entre todos os seus habitantes, fruto em grande parte do espírito de sua gente que às riquezas excessivas prefere sempre o tranqüilo e romântico deslizar da vida.

Entre a angústia dos que vivem a ambicionar posição e fortuna, na nossa alma cantam apenas singelos poemas de simplicidade e entre o aspecto material e grosseiro da vida, nós empunhamos tranqüilamente a lira e sabemos que pelas ermas horas de silêncio de nossas noites evocadoras o nosso coração e a nossa alma se podem libertar nas asas do sonho para os altos climas a espiritualidade.

Esta festa majestosa e incisiva acorda dentro de mim interrogações surpreendentes. O que era o mundo à época em que um punhado de homens, perdidos nestes rincões longínquos, idealizou e estruturou esta sociedade?

O problema social que a guerra de 1914 focalizou existia, apenas, latente no espírito de um reduzido grupo de predestinados. A humanidade regida por velhas fórmulas, tendo, através de um longo ciclo de vida fácil, esquecido os ensinamentos cristãos, se dividira em castas, da qual a mais humilde e desprezada era exatamente a do operariado. Nobres e burgueses se disputavam a posse do mundo, sob a proteção invencível do dinheiro. O direito era uma lâmina brilhante, porém de um gume apenas. E este se voltava, na maioria das vezes, contra o operário, contra o trabalhador silencioso, que nas horas de amargura de uma existência sempre falhada, ajudava a construir, sem que o reconhecessem, a grandeza e a prosperidade do Universo.

As vozes que ousavam levantar o brado de protesto contra as iniqüidades sociais eram abafadas, e no fundo dos cárceres, às vezes, pagavam a utopia de reivindicar para os que sofrem e lutam as bênçãos e as graças do conforto material e espiritual, privilégio, então de reduzido número de poderosos. Como tem sempre descido do alto das torres de Deus, pela voz sonora dos carrilhões católicos, a palavra de conforto e a imposição para que todos se julgassem iguais através de milênios, pelos púlpitos e pelas naves, pelas estradas e pelos templos, nunca se calou a voz dos herdeiros de Cristo. E se em alguns documentos humanos do valor da Rerum Novarum de Leão XIII, o problema era revelado nas claras luzes de uma solução, silenciosamente pelas cidades, aldeias, arraiais e povoados, onde quer que se ostentasse uma pequena ermida, havia sempre uma voz clamando pela agremiação dos homens, em sentimentos e instituições que lhes garantissem um equilíbrio social e ao mesmo tempo lhes lembrasse que afinal de contas, todos somos iguais e que a diferença social é apenas uma burla de que se servem os poderosos para, oprimindo os humildes, garantirem para si uma situação de domínio.

Esta máscara opressora vai caindo da face dos povos, a medida que o mundo vai se humanizando, começam os homens a sentir que a massa numerosa, densa e sofredora da classe operária precisa vir à tona, e se despindo das vestes sombrias de dores seculares respirar, a plenos pulmões, o mesmo ar cristalino e puro que era reservado apenas a reduzido número de felizes mortais.

Sabemos, porém, o preço dessas conquistas. Sabemos que a pregação cristã abriu o início da picada. Mas para transformá-la em avenida ampla e cheia de luz, milhões de corações cessaram de bater, regando com a púrpura candente de seu sangue, o solo dolorido de velhos e cultos centros civilizados.

Hoje, abrimos ainda um pouco atônitos, os olhos para o quadro desolador que a vida oferecia. E entre os albores que tingem o horizonte já se ouvem as vozes profundas, que anunciam o advento da nova era. E esta será, e a Deus pedimos que assim seja, a realização dos velhos sonhos, acumulados através de milênios de sofrimento.

Queremos que não haja no mundo as inúteis desigualdades sociais e que a todos, operários, intelectuais, industriais seja conferido idêntico direito à vida. Não se pode mais conceber que após labuta longa e sem resultados, o pobre operário, esfalfado e gasto pela peleja, vá somente encontrar num leito de esmola o repouso tão necessário aos seus músculos fatigados. Não se pode mais conceber que a família daqueles que viveram e morreram à sombra do infortúnio, receba como herança de uma vida afanosa, apenas o opróbrio da miséria e da fome, com o cortejo sinistro da desagregação moral que acarreta.

Felizmente, operários de Diamantina, esta época está no fim. Aposentadoria, férias, pensão para a família e justiça social já são uma tranqüila conquista do mundo operário. A sociedade não lhe pode fechar as portas como outrora o fazia e as leis sobre eles estendem, hoje, o manto protetor de seus direitos, tão vivos e sagrados como o dos eminentes nobres da extinta época medieval. No exercício de meu modesto mandato de prefeito de Belo Horizonte, abri algumas largas perspectivas no campo social da cidade que hoje governo.

Hospital Municipal, Restaurante Cidade, Assistência Popular Municipal, Lactários, Beneficência Municipal, Lar dos Meninos, e outras organizações de moldes sociais e humanos ficarão naquela cidade encantadora, como os marcos de uma fase social que mais ninguém poderá deter, e que gravarão na fisionomia palpitante e viva de Belo Horizonte o empenho e o carinho com que o seu prefeito procurou aflorar alguns dos mais graves problemas da hora atual. Tudo isto, porém, senhores, nós o executamos após sentir que nas pulsações o Universo penetrara um novo ritmo. Sobre o nosso espírito e bem dentro do nosso coração, neste século que outra coisa não foi ainda senão um imenso palco de mortes e de guerra, a chama inspiradora, voando de sofrimento em sofrimento, veio bater e iluminar os arcanos profundos de nossa alma, impondo-nos a tarefa e guiando-nos na rota a seguir.

A União Operária de Diamantina, porém, precedeu com uma profética antevisão dos fenômenos sociais, o grande movimento de organização e defesa de sua classe. Sem interrupções, através de decênios, morosa mas seguramente, conseguiu ela congregar o meio operário de Diamantina e dar-lhe a coesão que lhe garantisse relevo acentuado no nosso meio social.

Seguiu, inalteravelmente, a rota primitiva e nunca foi buscar em ideologias revolucionárias ou exóticas o estímulo para as suas conquistas. Modelou-se à sombra de Cristo, de cujos doces ensinamentos brotou a essência miraculosa de sua substância. Os operários que aqui se congregam têm no coração a imagem de Deus e da Família como um dogma moral indestrutível e a sua sobrevivência tão longa e fecunda vem demonstrar que as revelações do mundo de amanhã se devem fazer à luz do socialismo cristão, de modo que as desigualdades sociais desapareçam.

Que a aurora destes acontecimentos ilumine os espíritos como à entrada de Damasco o raio de Deus, penetrando na cegueira de São Paulo, riscou-lhe, para sempre, o rumo da verdade.

Em notável oração pronunciada no Ginásio desta cidade, o eminente reitor, Padre José Pedro, em normas de profunda sabedoria, aconselhava os alunos a não se deixarem dominar pela mentalidade de Creso, isto é, a não julgarem os homens pelo que eles possuem, mas pelo que eles são, acrescentando que nada há mais revoltante do que o cidadão cujo único ideal é ganhar dinheiro, mesmo que isso o leve à exploração do seu semelhante.

É contra esse revoltante materialismo que se erguem as forças cristãs, políticas, proletárias e humanas. O operário é um cidadão a cujo esforço e trabalhos devemos render a homenagem de nosso respeito. Ele é a alavanca do mundo. Isto que a União Operária de Diamantina proclamava há tantos anos penetra, finalmente, na esfera da compreensão do homem. Sois os pioneiros de um profundo movimento renovador. E com que dedicação e modéstia vindes realizando uma das mais fecundas conquistas do coração humano. Nesta cidade, numa noite longínqua de 1891, há mais de meio século passado, descia as escadas de uma residência em festa, sob o peso da humilhação, um operário que a sociedade repudiara, julgando-o de acordo com os cânones da época, indigno de ali penetrar.

À porta, encontra quatro conterrâneos, aos quais expõe a afronta aviltante que recebera. Os quatro se reúnem a mais cinco, que tangidos pelas virtudes profundas e fundamentais do caráter de nossa gente, fundam esta Sociedade, que doravante resguardaria de qualquer agressão, leais e devotados diamantinenses, sob cujos músculos, repousavam a energia construtiva de nossa cidade.

O tempo varreu os caminhos e carregou na poeira do aniquilamento oito destes generosos espíritos diamantinenses.

Um sobreviveu, porém – sob a sua fronte fatigada cantam ainda as aleluias de um espírito viril e forte e de suas mãos que a mística inspiradora da arte transformou em cinzéis atenienses, florescem as claras linhas de relevo que dão a Diamantina a glória de possuir o mais cintilante artista brasileiro, este grande coração que o carinho afetuoso de Diamantina designa por Antoninho de Pádua. Deus o conserve para nós como símbolo e expressão da nobre classe operária de nossa Terra.

Ao receber o vosso convite, transmitido pelo meu dileto amigo Ernesto Roque, em cujo sentimento se acende toda a beleza da generosa boemia de nossa Terra e em cujos cabelos a cor do luar já empresta reflexos de prata, eu vejo se espalharem o encanto e a buliçosa inquietação romântica de nosso temperamento, especialmente voltado para o mundo subjetivo das conquistas espirituais. Glória a vossa organização e louvores aos que a idealizaram e a vem mantendo dentro do espírito rigorosamente social, afastados de competições em que não entre, como tema fundamental, o apoio, a assistência e a elevação moral e social de todos os operários de Diamantina. Trazendo-me até aqui para conviver convosco estes instantes de sadia confraternização, rasgastes para o meu espírito mais uma destas auroras, à luz de cuja claridade eu vejo despontar a indecisa silhueta de velhos tempos, sobretudo daqueles em que por estas vetustas calçadas, eu passava a inexperiência festiva e sonhadora de minha adolescência. Naquelas horas longínquas, embalado na quimera de aspirações, algumas das quais a vida realizou, eu me perdia num mundo misterioso e vago, bebendo, na imaginação policroma dos grandes escritores da época, a seiva fecunda que me modelaria, pela vida afora, as diretrizes fundamentais do espírito mas, e isto não é segredo meu, pois que todos o sabem, os minguados recursos de minha pobre e peregrina mãe, eram insuficientes para me proporcionarem a aquisição de livros em que eu colhesse a linda flor da cultura. Nunca se perderão na minha memória reconhecida os silenciosos e tranqüilos serões que nesta casa eu fazia, recebendo dos velhos livros da modesta biblioteca que aqui mantínheis, as primeiras sementes da reduzida ilustração que vim a conquistar.

Algumas recordações juvenis se infiltram e jamais se apagam no painel de nossa imaginação. Assistindo, há pouco tempo, a exibição do grande filme Ben Hur, subitamente, mergulhei-me num grande sonho, no halo do qual eu me via entrando por uma noite fria e chuvosa na sala sobre a qual estamos e onde em pequenas estantes se alinhavam as lombadas acolhedoras de vossos livros. E foi ali, precisamente, que pela primeira vez pude ler, sob as mais vivas emoções, o delicioso romance que fixaria em minha memória, para sempre, as horas de encantamento que através de vossa modelar organização me foram dadas desfrutar. Não tenho expressões, pois, para vos agradecer. O meu coração é um mosaico colorido, em cada fragmento do qual há uma nota sensibilizadora, fecundada pelo carinho que Diamantina me tem dispensado, eu o mais modesto de seus filhos, porém, eu, o mais apaixonado pela glória de seu passado, pela grandeza de seu nome e pelos esplendores que ainda lhe reserva o futuro.

Fonte:

AHEAD – Jornal A Estrella Polar. Ano XLII. 04/06/1944. nº. 23. p. 01. col. 2-5. / p. 06. col. 4-5.

AHEAD – Arquivo Histórico e Eclesiástico da Arquidiocese de Diamantina.

Leia nesta semana na Voz de Diamantina

Capa (17)Na edição da semana passada comentávamos sobre a pequena e despojada Sala dos Milagres em que se transformou a dispensa do Pão de Santo Antônio, testemunha silenciosa da generosidade do povo diamantinense. Desde seus primórdios o velho asilo pôde contar com a fartura na cozinha graças às doações que lá pingavam com a frequência diretamente proporcional às necessidades dos seus assistidos. E não faltaram também agasalhos, roupas de cama, utensílios domésticos, materiais de construção e recursos para a edificação das harmoniosas casinhas que se iam enfileirando nos dois lados da capela em cujo altar se entronizou a imagem do patrono da casa, o taumaturgo Santo Antônio.

Joaquim Ribeiro Barbosa - “Quincas”

Início do editorial da Voz de Diamantina - Edição 620, 29 de junho de 2013

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

45º Festival de Inverno da UFMG recebe inscrições até 15 de julho

Fonte: UFMG

O 45º Festival de Inverno da UFMG, que será realizado de 21 a 28 de julho, em Diamantina (MG), com o tema O bem comum, receberá inscrições entre 5 e 15 deste mês, por meio de acesso ao blog do evento, que também informa sobre a programação do Festival.

De acordo com os organizadores do evento, o Festival de Inverno da UFMG, ao se orientar pela noção de bem comum, reivindica uma nova partilha dos lugares dos sujeitos na comunidade e questiona a divisão entre os que trabalham e os que fazem arte, entre os que estudam e gerenciam a cultura e aqueles que a inventam cotidianamente.

Ao ampliar o acesso da população aos espetáculos e diversas outras atividades, o Festival busca práticas de hospitalidade que permitam a interação entre os convidados – mestres das culturas afro-brasileiras e indígenas, artistas de vários domínios e pesquisadores, participantes inscritos nas várias atividades – e as múltiplas experiências que a cidade abriga, situadas em uma escola ou associação de bairro, terreiros de candomblé, campos de futebol, as margens de um rio, uma rua povoada de crianças, uma cooperativa de mulheres cozinheiras, um grupo de dança, de música ou de teatro.

Atrações
Este ano o Festival de Inverno da UFMG se organiza em torno de três gêneros de atividades: apresentações artísticas, coletivos e itinerâncias. As apresentações, todas gratuitas, vão acontecer em diferentes espaços da cidade, a partir do início da noite. Entre as atrações estarão a Orquestra Jovem de Diamantina, dança afro e balé, festa no terreiro Mamãe Oxum e Noite Hip Hop, com duelo de MCs.

Os quatro coletivos que integram o 45º Festival de Inverno da UFMG são Margens e Arredores da Cidade, Cantares Afro-Brasileiros, Cineastas Indígenas e Imagens do Bem Comum: Territórios e Retratos.

As itinerâncias são constituídas por conjunto de ações e intervenções temáticas anunciadas pela presença do Caminhão Itinerante, que levarão o Festival, a cada dia, a um ponto diferente da cidade. As atividades incluem banquetes e cafés, cantos, festas, danças, performances, filmes comentados e rodas de conversas. O Caminhão Itinerante se deslocará acompanhado dos atores e participantes do grupo Errância do Boi da Manta.
Para garantir a participação efetiva dos moradores da cidade e dos inscritos nas diversas atividades, será mantido o sistema de transporte público e gratuito criado na edição passada, o Tarifa Zero.

Outras informações podem ser obtidas, além do blog do evento, pelo Facebook e pelo Twitter do 45º Festival de Inverno.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Programa “Um pé de quê?” de Regina Casé na região de Diamantina

Este vídeo é uma homenagem aos viajantes naturalistas do século XIX a temporada 2011 do programa Um Pé de Quê? que Regina Casé gravou em Minas Gerais para o Canal Futura. Guiada pelos relatos de grandes estudiosos daquela época, principalmente do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, Regina vai viajar por toda a região da Estrada Real, passando por cidades como Diamantina, São Gonçalo do Rio das Pedras e Milho Verde, até chegar ao Rio de Janeiro. A ideia é mostrar as plantas e paisagens que inspiraram a contribuição desses grandes homens da ciência e das artes para a formação do Brasil.

 

Chá de Pedestre

 

Quiabo da Lapa

 

Candeia

O mérito da doação do terreno da Rua da Glória, pela Santa Casa, para a instalação da Faculdade de Odontologia em Diamantina

Autor: Wander Conceição

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Nos primeiros meses do ano de 1953, um grupo de professores argentinos, especialistas da área de odontologia, fez a opção de se exilar no Brasil, em decorrência da campanha repressiva aos intelectuais argentinos antagonistas ao governo do presidente Juan Domingo Perón. Desembarcaram em Belo Horizonte, onde solicitaram guarida ao professor Pedro Paulo Penido, antigo diretor do Serviço Odontológico da Polícia Militar mineira, mas na época, ocupando o cargo de magnífico reitor da Universidade de Minas Gerais. Amigo particular de Juscelino Kubitschek de Oliveira desde a contra revolução de 1932, o professor Penido procurou o então governador, solicitando-lhe ajuda para definir a situação daquele grupo de professores argentinos.

Havia em Diamantina a idéia fixa de fundação de uma Faculdade de Odontologia e Farmácia, que ganhou força durante a instituição da Sociedade Anônima criada com o propósito de fundação do Colégio Diamantinense em 1934. Esse tema voltara a ser fortemente discutido em 1951, no seio da Associação Comercial e Industrial de Diamantina, quando aquela instituição passara a enviar memorandos, solicitando ações em favor do melhoramento da cidade, ao governador recém-eleito.

Diante da solicitação do professor Pedro Paulo Penido, o governador Juscelino Kubitschek

percebeu, naquele acontecimento, a possibilidade de se criar a tão sonhada Faculdade de Odontologia em Diamantina, aproveitando, para formar o seu corpo docente, o grupo de professores argentinos, exilados no Brasil. Com esse propósito, no sábado, 11 de abril de 1953, Juscelino Kubitschek chegou, inesperadamente, a Diamantina, onde se reuniu com o prefeito Lomelino Ramos Couto, para tratar da fundação da referida Faculdade e verificar a possibilidade de sua inauguração imediata. Naquela reunião, resolveu-se que o prefeito ficaria responsável pela parte administrativa, encarregado de conseguir o terreno para a construção do prédio da Faculdade e de escolher os funcionários que atuariam no corpo administrativo da nova instituição.

cirlei1A prefeitura vislumbrou a construção do prédio em um lote situado em área nobre da cidade, de propriedade da Santa Casa de Caridade de Diamantina, passando a intermediar, entre a Santa Casa e o governo do estado, as negociações para sua aquisição. Esse terreno localizava-se na parte posterior da Santa Casa, estendendo-se pela rua da Glória, no qual, no final do século XIX, plantou-se extensa videira, para complementar a produção vinícola do Colégio Nossa Senhora das Dores. Entretanto, como o estatuto da instituição não permitia a venda de bens imóveis, o terreno era inalienável. Rezava ainda o estatuto, que toda renda oriunda de bens patrimoniais, obrigatoriamente, teria que ser investida no patrimônio da Santa Casa, não podendo ter outra finalidade de consumo. A única solução encontrada foi a formalização de uma permuta.

Na parte frontal superior do terreno, com entrada pela rua da Caridade, havia o antigo prédio provedor “Comendador Brant”, que funcionara como hospício para abrigar os considerados alienados, construído ao final do século XIX. O local, nas décadas anteriores àquele ano de 1953, oferecera assistência a pacientes acometidos de tifo, sarampo e tuberculose. Na parte posterior do referido prédio do hospício, existiam duas alas laterais anexas, compridas e sem divisória, construídas de forma contraposta, com celas individuais para abrigar os considerados loucos. Tanto o prédio, como também as alas anexas, estavam muito danificados, por conseqüência, sem higiene alguma.

Os termos da permuta foram fechados com o governo do estado na seguinte condição: O governo receberia, por doação, a parte do terreno da Santa Casa voltada para a rua da Glória, para construção da Faculdade de Odontologia. Em contrapartida, se obrigaria a demolir as duas alas anexas com as celas individuais para loucos, há muito obsoletas, como se obrigaria também a construir o pavilhão Santa Rita, ao lado do antigo hospital de alienados.

O pavilhão Santa Rita foi construído com o propósito de otimizar o atendimento, dividindo-o em três partes distintas, com instalações sanitárias individualizadas, para oferecer um pouco mais de conforto aos pacientes. A primeira parte, para abrigar as parturientes, a segunda, para as patologias clínicas, e a terceira, como pequeno isolamento das patologias infecto-contagiosas. O governo do estado ainda doou para a Santa Casa uma mesa para cirurgia, da marca Mercedes, boa quantidade de instrumentos cirúrgicos e parte de um laboratório para análises clínicas, com microscópio e reagentes para exames.

Este documento publicado agora pelo atual provedor, Juscelino Brasiliano Roque, é o registro dos termos da doação do terreno que a Santa Casa fez ao governo do estado, em 30 de junho de 1953. Embora os professores argentinos tenham voltado para o seu país no início do ano seguinte, em face de algumas mudanças que aconteceram na situação política da Argentina, o processo de implantação da Faculdade de Odontologia já estava em curso bem adiantado, acelerado, principalmente, pela negociação incontinenti do terreno, efetuada com a Santa Casa. Novos professores de Belo Horizonte foram contratados e o curso teve início no mês de abril de 1954, sendo utilizadas as dependências do prédio do Grupo Escolar Júlia Kubitschek. No primeiro semestre do ano seguinte, as aulas passaram para o casarão da rua Jogo da Bola, nº. 08, ao lado da Casa de Chica da Silva. A construção da sede própria da Faculdade de Odontologia iniciou-se já no ano de 1953. Ao final do mês de maio de 1955, considerando-se que algumas salas construídas na parte superior do prédio na rua da Glória já reuniam condições de acomodar os alunos, a secretaria, o instrumental e o pequeno museu em formação na escola, operou-se a mudança definitiva da Faculdade de Odontologia para seu prédio próprio, situado à rua da Glória.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Palestra de Ronaldo Fraga aborda a moda como instrumento de reafirmação cultural

Atividade integra programação do MINAS Território da Cultura em Diamantina

O estilista Ronaldo Fraga estará em Diamantina, região central de Minas Gerais, no próximo dia 2, terça-feira, para ministrar palestra sobre inclusão social por meio da moda. A atividade faz parte do roteiro de atrações do MINAS Território da Cultura, programa desenvolvido pela Secretaria de Estado de Cultura, que teve início na última sexta-feira, 21.

Ronaldo Fraga é reconhecido pela capacidade criativa de propor coleções e projetos de moda que reduzem o distanciamento da produção industrial e artesanal no Brasil. A partir do tema “Tecendo histórias: a moda como instrumento de reafirmação cultural”, o estilista vai apresentar a moda como vetor cultural. Ronaldo Fraga irá abordar, ainda, a economia criativa presente na moda, e explicar como a literatura e a música o ajudam a buscar inspiração para o seu trabalho.

Segundo a Secretária de Estado de Cultura, Eliane Parreiras, o talento e a originalidade de Ronaldo Fraga têm elevado o nome de Minas Gerais, e também do Brasil, ao mais alto nível. As atividades desenvolvidas no segmento da moda, hoje, são entendidas pelo governo como fontes constantes para a promoção de emprego, geração de renda e apropriação cultural. “Ronaldo Fraga tem a peculiaridade de criar peças que nos remetem a todo o talento presente no nosso Estado, celebrando, de maneira peculiar, a cultura mineira por meio de suas roupas. Contar com a presença do estilista no roteiro de atrações do MINAS Território da Cultura é, sem dúvidas, uma grande honra”, afirmou.

Ronaldo Fraga destaca a importância da parceira com a Secretaria de Estado de Cultura. Para o estilista, “A Secretaria de Estado de Cultura é sensível em relação à importância dos diálogos entre moda e outras frentes de cultura. Essa iniciativa indica um desejo de estimular a economia criativa no estado”.

Sobre Ronaldo Fraga – O estilista Ronaldo Fraga foi o primeiro e único designer a receber do governo brasileiro a comenda de ordem ao mérito cultural, pelo trabalho de geração de emprego e renda com reafirmação cultural, que vem desenvolvendo nas diferentes regiões do Brasil.

MINAS Território da Cultura – Criado pelo Governo de Minas em 2013 e coordenado pela Secretaria de Estado de Cultura (SEC), o ‘MINAS Território da Cultura’ é um programa articulado de descentralização da ação cultural que acontecerá ao longo de 2013 e 2014.

Entre os objetivos do programa, estão: promover o desenvolvimento regional por meio da cultura; valorizar e divulgar a diversidade cultural de cada uma das regiões de Minas; conferir visibilidade e aumentar a demanda pelas ações e programas da SEC e de seus parceiros; incentivar parcerias públicas e com a iniciativa privada; promover a circulação de bens culturais e a capacitação e o aperfeiçoamento dos agentes culturais visando à sustentabilidade social e cultural.

Desde seu lançamento, em março deste ano, o programa já passou pela Zona da Mata, pelo Triângulo Mineiro e pelo Sul de Minas, onde a programação se estende até dia 30 de junho. Até o momento, foram realizadas 287 ações, que se desdobraram em 548 programações, em 81 municípios, durante 108 dias.

MAIS INFORMAÇÕES:

www.cultura.mg.gov.br/territoriodacultura

Palestra “Tecendo histórias: a moda como instrumento de reafirmação cultural”
Data:
2 de julho
Horário:
19h30
Local:
Teatro Santa Izabel
Endereço:
Praça Dom Joaquim, 166 – Centro
Informações:
Vítor Cruz / (31) 3915-2646 / (31) 8626-4519 vitor.cruz@cultura.mg.gov.br

De Minas direto para Nova York

Fonte: Brasília em Tempo Real (clique aqui).

O ponto de partida é o Vale do Jequitinhonha e o Noroeste de Minas. A parada final é uma das megalópoles mais célebres do mundo: Nova York, nos Estados Unidos. É esse o destino de três mineiras, que vão mostrar, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), o artesanato produzido nas Gerais. Elas foram selecionadas com outras 12 mulheres, num universo de mais de 100 inscrições, para representar a arte do país na exposição Mulher artesã brasileira, que ocorrerá durante a Assembleia Geral da ONU, no início de setembro. Algodão, barro e flores são as matérias-primas dos produtos que prometem encantar chefes de Estado de todo o planeta.

O projeto é uma iniciativa da Associação Brasileira de Exposição de Artesanato (Abexa), com patrocínio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e apoio do Instituto Centro Cape, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e da Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República. A seleção foi rigorosa, e não bastava ter talento. A presidente do Centro Cape, diretora da Abexa e idealizadora do projeto, Tânia Machado, explica que foram levados em conta ainda a inovação, o espírito empreendedor, o impacto do trabalho na comunidade, a criatividade e a ética. "Além de ser artista, era preciso ser uma pessoa que trabalha em prol da comunidade", afirma.

No seleto grupo está Maria José Gomes da Silva, a Zezinha, de 45 anos, moradora da comunidade de Campo do Buriti, na zona rural de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha. Ela usa barro e argila para fazer bonecas que são de encher os olhos. Agora, a artesã vive a expectativa de poder sair, pela primeira vez, do país. Na mala, as peças já estão definidas: uma noiva de 70cm de altura, uma boneca sentada e uma flor. A associação da qual ela faz parte tem hoje 46 artesãs, que vivem praticamente da renda obtida com a venda dos artesanatos. Na época da inscrição, ela foi incentivada pela equipe da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater). "Falaram que eu era forte candidata, mas não tive expectativas. Fiquei surpresa com o resultado, não esperava. A gente fica meio sem acreditar", afirma.

O artesanato surgiu na vida de Zezinha com a necessidade de confeccionar os próprios brinquedos. A partir dos 15 anos, ela aproveitou os ensinamentos da mãe para fazer da brincadeira sua fonte de geração de renda. Hoje, é referência na associação, ao repassar suas técnicas e garantir a continuidade desse trabalho. Ela garante que fazer as bonecas não é complicado. Para ela, difícil mesmo é achar o caminho das pedras para ganhar o mercado internacional. "Somos pequenos, não sei se temos condições para exportar, mas tudo servirá como experiência e aprendizado", revela.

SINGELEZA Se Zezinha adota o jeito mineiro da cautela, Juracy Borges da Silva, de 50, da comunidade de Galheiros, distrito de Diamantina, também no Jequitinhonha, aposta na vitrine da ONU para ir mais longe. Secretária e representante municipal da Associação de Artesãos Sempre-Viva, ela ficou sabendo da inscrição por meio do pessoal do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Idene). "Quando recebi a notícia fiquei numa extrema alegria, pois esperávamos há muito tempo a oportunidade de mostrar nosso trabalho no exterior", conta. O artesanato do grupo tem na singeleza das sempre-vivas o pilar da beleza, e por isso, o projeto desenvolvi, do na comunidade inicialmente com o objetivo único de conservar espécies tem o mesmo nome da flor. Além dela, são usadas ainda folhas, frutos, cascas, fibras de bananeira e palha de milho.

Todas são plantas nativas da região, cultivadas pelos artesãos. A associação tem parceria com a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e cultiva um viveiro de mudas da sempre-viva. "É um trabalho sustentável, porque não agredimos o meio ambiente, com a consciência de que essas plantas devem ser preservadas. Além disso, é uma tradição que passa de pai para filho", relata Juracy. Atualmente, o grupo conta com 29 artesãos e cerca de 60 pessoas que se beneficiam indiretamente do artesanato - não confeccionam as peças, mas coletam as plantas.

A associação produz de 200 a 300 itens por mês, entre anjos, divinos, presépios, arranjos, ímãs de geladeiras e flores de casca de urucum. Para a exposição na ONU, Juracy vai levar uma luminária, uma guirlanda e um arranjo de mesa. A escolha foi feita a partir das peças mais vendidas. "Estou deslumbrada. Nunca imaginei que isso pudesse ocorrer. Para mim era só um sonho. Agora, vejo uma porta muito ampla que se abriu e vamos ver se, com essa oportunidade, conseguimos exportar nossos produtos", diz ela.

Em busca de apoio

As passagens das artesãs foram garantidas pela Secretaria de Estado de Cultura. O Centro Cape busca agora apoio para outras despesas. A ideia é fazer essas mulheres descobrirem também um pouco de Nova York, com direito a visitar museus e assistir a um show na Broadway. A exposição será aberta em 8 de setembro, com a presença de chefes de Estado. O público em geral terá acesso a partir do dia seguinte. Além de artesanato, haverá ainda exposição fotográfica e documentário sobre as mulheres que representarão o Brasil diante do mundo.