sexta-feira, 12 de julho de 2013

No Centenário do Padre Celso de Carvalho (1913–2013)

 

                Usemos o esplendor sublime dos seus próprios versos

para iniciar este descolorido comentário:

 

“Saudade é amar, ainda,

Alguém que nem vive mais.

Por isto, a saudade é linda;

Por isto ela dói demais!”

 

É o que quem teve a honra de ser conterrâneo, amigo e contemporâneo de padre Celso de Carvalho (nascido Celso Avellar de Carvalho) está sentindo agora, quando se aproxima o centenário do seu nascimento. Ele veio ao mundo na Fazenda São Sebastião, em Curvelo (MG), no dia 16 de julho de 1913, filho de Saturnino Dias de Carvalho Júnior e Carmelita Avellar Carvalho.  Concluído o Curso Primário, na terra natal, foi cumprir sua vocação evangelizadora, ingressando no vetusto Seminário de Diamantina. Ordenou-se sacerdote em Roma, no dia 16 de abril de 1938, onde estudou cerca de nove anos.

De inteligência rutilante, sempre apegado aos livros, o modesto padre Celso, que nunca se despiu da surrada batina preta, que de tanto uso foi perdendo a cor original, tornando-se quase fouveira, acumulou um acervo cultural impressionante. Tornou-se, ainda na Cidade Eterna, pela Pontifícia Universidade Gregoriana, doutor em direito canônico, filosofia e teologia. Também se tornou astrônomo.

Era considerado um dos mais brilhantes membros da Igreja Católica e manteve-se humilde enquanto viveu. Sempre revelando no rosto uma seriedade que não correspondia ao seu coração generoso, ele se abria por inteiro quando em companhia dos amigos mais próximos, principalmente daqueles que se dedicavam às atividades lítero-culturais.

Poeta, biógrafo, filósofo, prosador e orador, na expressão maior dos vocábulos, era inexcedível como trovador; ele, J. G. de Araújo Jorge, Luiz Otávio e outros menestréis criaram o “Trovadorisno Brasileiro”, embrião da vitoriosa União Brasileira de Trovadores (UBT). Padre Celso admirava e acolhia os mais pobres e desvalidos, deixando para nós incontáveis páginas de lirismo, ternura e sentimentos fraternos, que não temos sequer a pretensão de analisar neste, modesto registro, apenas recordando “Orquídeas”, “Ciranda”, “Estas Ruas Serpeantes”, “Uma Tristeza... Só Triste...”  e “Sol das Almas”, que são instantes maiores  de sua lira...

Os últimos anos de vida, ele os passou em Diamantina, lecionando matérias que exigiriam pelo menos seis especialistas, no modelar forjador de padres daquela cidade, que era um dos seus encantamentos.        Habitava uma cela de pobreza franciscana, no próprio Seminário. Ali, rodeado de livros e sempre cheio de inspiração, recebia os amigos. O catre, a mesinha de cabeceira, a poltrona puída pelo longo uso e os livros de orações e de literatura eram a sua riqueza.  O que continha de seu, no mundo e no cubículo onde vivia. Mais à frente estava a janela de onde descortinava linda paisagem de pedras enormes e a vegetação nativa, com predominância das discretas sempre-vivas, mostrando ao fundo o majestoso Pico do Itambé, que mereceu tantas páginas suas! Foi por aquele Pico que Padre Celso de Carvalho mediu, a cada dia, a perda da visão... Ao amanhecer, abria a pesada janela, olhava aos longes e via que também a portentosa elevação parecia afastar-se para os longes, onde a vista não mais o alcançava... Coisas de poeta! Era a noite chegando para os seus olhos, cerrando para sempre as cortinas do mundo visível... Era a cegueira, que não foi capaz de toldar a luz esfuziante do seu estro, da sua alma de poeta e do seu amor a Deus! Como o Nordestino, ele logo descobriu que o pássaro de olhos furados cantava muito melhor e mais bonito!

Padre Celso partiu para o Eterno em 17 de setembro de 2000, em Diamantina, estando seu corpo sepultado na cripta da Basílica do Sagrado Coração de Jesus, daquela histórica cidade. Na Diamantina que ele amou tanto e à qual dedicou versos que se inscrevem entre os mais belos da língua portuguesa.

Com certeza, mas noites frias e enluaradas daquela terra, os acordes dos violões e as belas vozes em serenata invadem os muros do campo santo e as paredes das igrejas, acordando anjos e visitando os seresteiros que já dormem o sono dos justos! Noutro plano, vendo de novo o Pico do Itambé, padre Celso de Carvalho semeia sobre o lugar diamantes em forma de flores, regando-os com a chuva de luzes das estrelas que adornam o seu espírito! É pena que não possamos deixar aqui, também, a joia musical da inspirada musicista Lícia Pádua, que emoldurou a antológica canção “Diamantina em Serenata”, que nos faz percorrer, em visões de sonhos, as ladeiras do centenário e lendário Tijuco:

 

Quando, à noite, a linda lua

Torna as pedras cor de prata,

Diamantina sai à rua

Transformada em serenata.

 

Seresteiros indormidos,

Dedilhando violões,

Levam música aos ouvidos

E saudade aos corações.

 

A seresta apaixonada

Corre as ruas do Macau,

Capistrana, Carvalhada,

São Francisco e Burgalhau.

 

Essas ruas serpeantes,

É tão fácil entendê-las:

Descem doidas por diamantes,

Sobem ávidas de estrelas.

 

O Itambé, mesmo de longe,

Ouve o som quase em surdina,

Ergue as mãos azuis de monge

E abençoa Diamantina...

 

Se de um sonho nada resta,

Só saudade, só, mais nada,

Como é linda uma seresta

Numa noite enluarada!

 

José Augusto Faria de Souza

 

Voz de Diamantina - Edição 622 - 13/07/2013

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