domingo, 14 de agosto de 2011

A influência de Diamantina na arquitetura moderna de Lúcio Costa

Fonte: Maria Elisa Costa e Fabio Jose Martins de Lima, no vitruvius

Lúcio Costa foi pioneiro e um dos principais nomes da arquitetura moderna brasileira. Juntamente com Niemeyer, ficou mundialmente reconhecido pela sua participação na construção de Brasília, especialmente pelo desenvolvimento do projeto do plano piloto da nova capital. 

Sempre ouvi falar que Diamantina teve uma grande influência em sua formação, a partir do momento que ele teve contato com o estilo colonial simples da cidade no início dos anos 20 do século passado. Em sua passagem por aqui o arquiteto registrou em desenhos vários aspectos da cidade, tais como janelas, construções e outros. Na figura acima temos uma aquarela feita por Lúcio Costa retratando o passadiço da Casa da Glória (1924).

Essa influência é confirmada e comentada na entrevista que transcrevo abaixo com Maria Elisa Costa, arquiteta e  filha de Lúcio Costa:

"Eu sempre tive uma curiosidade sobre como aconteceu a mudança de rumo na arquitetura dele – mas como é que é isso, como é que acontece que de repente você aperta um botão e muda? como é que se processou? eu perguntei isso a ele. Aí ele me disse o seguinte: a primeira coisa, a coisa básica foi o encontro com Diamantina, em 1924; ele era um arquiteto neo-colonial, de sucesso, desenhava divinamente, mas era muito moço, tinha só 22 anos, e por isso mesmo foi enviado a Diamantina, que era longe, e a viagem cansativa – os mais velhos foram para Ouro Preto, Mariana.

Quando ele narra o susto daquele encontro, é impressionante: chegou lá e caiu em cheio num passado, num passado de verdade, que era novo em folha para ele. E ele comentava esse encontro com Diamantina, como se fosse ontem, e no final dizia uma frase definitiva, ‘…era aquela beleza sem esforço’, entende? Então para ele bateu uma coisa… ôpa, o que é isso, nós, neo-coloniais, fazemos um supremo esforço, você pega coisa de igreja e bota em casa, não é, e de repente chega aqui e é tudo normal, lindo e sereno e compatível com a tecnologia de construir; então isso instalou dentro dele uma perplexidade, digamos, um desconforto extremamente poderoso, porque perdurou… ele continuou sendo arquiteto neo-colonial até 29, mas aquilo começou a incomodar cada vez mais, ficou aquela referência de base, e eu tenho a sensação sempre de que esse encontro com Diamantina foi também o caminho de chegar à coisa moderna. Na cabeça de uma pessoa bem informada como ele, com lastro cultural bom, todas as épocas tinham uma cara correspondente a um modo de construir. Como a mudança radical nas técnicas construtivas, em meados do século XIX, que davam a  possibilidade de “vestir” a estrutura com as mais diversas fantasias,  ficava  tudo lá dentro escondido e ninguém estava preocupado com isso.

De repente eu acredito que isso de Diamantina, da coisa verdadeira, da coisa autêntica, colocou nele também o embrião da pergunta: Qual seria o moderno do meu tempo? Qual seria a cara correspondente a essa tecnologia nova!? Porque foi uma mudança enorme, você não tinha mais parede aguentando – de repente porão vira pilotis – pilotis é um porão sem parede –, não precisa mais ter parede no térreo, porque o térreo nunca foi valorizado. Ou seja, você tinha sempre um porão, uma coisa qualquer, o primeiro andar sempre foi um pouco mais alto que o chão. Uma simplicidade bela – para ele coisa bonita… beleza sempre foi fundamental, como dizia o Vinicius. O encontro com Diamantina instaurou em Lucio uma indagação, afinal, como é possível fazer uma coisa bonita de maneira simples?"

Clique aqui para ler  a entrevista completa.

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